Um livro muito original, que tenta compreender como o Brasil buscou seu lugar dentro do continente americano na época da publicação do suplemento “Pensamento da América”, que integrou o jornal A Manhã, de agosto de 1941 a fevereiro de 1948. A idéia do suplemento era estimular a aproximação cultural entre as nações americanas e refazer a imagem da América, aproximando-a dos brasileiros que, sob o Estado Novo, viam-se bombardeados por um novo país. Ana Luiza Beraba, a autora, apresenta aqui um estudo rico e muito interessante desse jornal que trançava lirismo e ideologia, ficção e realidade. E que tentava criar uma identidade nova para os brasileiros, até então acostumados com as referências européias.Revistas e sítios
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quinta-feira, abril 23, 2009
América Aracnídea
Um livro muito original, que tenta compreender como o Brasil buscou seu lugar dentro do continente americano na época da publicação do suplemento “Pensamento da América”, que integrou o jornal A Manhã, de agosto de 1941 a fevereiro de 1948. A idéia do suplemento era estimular a aproximação cultural entre as nações americanas e refazer a imagem da América, aproximando-a dos brasileiros que, sob o Estado Novo, viam-se bombardeados por um novo país. Ana Luiza Beraba, a autora, apresenta aqui um estudo rico e muito interessante desse jornal que trançava lirismo e ideologia, ficção e realidade. E que tentava criar uma identidade nova para os brasileiros, até então acostumados com as referências européias.terça-feira, abril 21, 2009
Novo Modelo de Sociedade

Frei Betto
Ao participar do Fórum Econômico Mundial para a América Latina, a 15 de abril, no Rio, indaguei: diante da atual crise financeira, trata-se de salvar o capitalismo ou a humanidade? A resposta é aparentemente óbvia. Por que o advérbio de modo? Por uma simples razão: não são poucos os que acreditam que fora do capitalismo a humanidade não tem futuro. Mas teve passado?
Para ler todo o artigo clique aqui :
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Por que "As Veias Abertas" ?

Emir Sader
Por que Hugo Chavez escolheu esse livro para dar de presente ao presidente dos EUA?Porque é um dos livros essenciais para entender a América Latina e os próprios EUA. “ Há dois lados na divisão internacional o trabalho: um em que alguns países especializam-se em ganhar, e outro em que se especializaram em perder. Nossa comarca do mundo, que hoje chamamos de América Latina, foi precoce: se especializou em perder desde os remotos tempos em que os europeus do Renascimento se abalançaram pelo mar e fincaram os dentes em sua garganta.” Um livro que se fundamenta na compreensão da nossa América nos dois pilares que articulam nossa violenta inserção subordinada no mercado capitalista internacional: o colonialismo e os dos maiores massacres da história da humanidade – a aniquilação dos povos indígenas e a escravidão. O capitalismo chegou a estas terras espalhando sangue, revelando ao que vinha. Não a trazer civilização fundada nas armas e no crucifixo, mas opressão, discriminação, exploração dos recursos naturais e dos seres humanos. O processo de colonização, que mudou de forma com a exploração imperial, é o fundamento do tema central e do nome do livro: “É a América Latina a região das veias abertas. Desde o descobrimento até nossos dias, tudo se transformou em capital europeu ou, mais tarde, norte-americano, e como tal se acumulou e se acumula até hoje nos distantes centros do poder. Tudo: a terra, seus frutos e suas profundidades, ricas em minerais, os homens e sua capacidade de trabalho e de consumo, os recursos naturais e os recursos humanos. O modo de produção e a estrutura de classes de cada lugar foram sucessivamente determinados, de fora, por sua incorporação à engrenagem universal do capitalismo”.As Veias demonstram claramente como “...o subdesenvolvimento latino-americano é uma consequência do desenvolvimento alheio, que nós, latino-americanos, somos pobres porque é rico o solo em que pisamos, e que os lugares privilegiados pela natureza se tornaram malditos pela história. Neste nosso mundo, mundo de centros poderosos e subúrbios submetidos, não há riqueza que não seja, no mínimo, suspeita.”“Com o passar do tempo, vão se aperfeiçoando os métodos de exportação das crises. O capital monopolista chega a seu mais alto grau de concentração e o domínio internacional dos mercados, os créditos e investimentos, torna possível a sistemática e crescente transferência ds contradições: a periferia paga o preço da prosperidade dos centros, sem maiores sobressaltos.” “Já se sabe quem são os condenados que pagam as crises de reajuste do sistema. Os preços da maioria dos produtos da América Latina baixam implacavelmente em relação aos preços dos produtos comprados dos países que monopolizam a tecnologia, o comércio, a indústria e o crédito. O presidente dos EUA disse, com razão, que a reunião de Trinidad Tobago demonstrará seu significado pelos efeitos concretos que tenha. Nenhum efeito será mais importante do que as conseqüências que ele – e tantos outros mandatários latino-americanos – tirem da leitura as "Veias Abertas da América Latina". As verdades de suas páginas foram confirmadas ao se transformar o livro em prova irrefutável do caráter subversivo de quem fosse pego com um exemplar na sua casa, durante as ditaduras militares latino-americanas. Mas a força de suas verdades é o que responde pelo fato de ele seja o livro latino-americano que merece estar em qualquer lista de leituras indispensáveis, feitas ou por fazer. No melhor presente que um latino-americano pode dar ao presidente dos EUA, a todo e qualquer norte-americano, a todos os latino-americanos, pelo que decifra da nossa história e a nossa identidade, do nosso passado e do nosso presente.
sexta-feira, abril 17, 2009
Cúpula da ALBA

Conclui hoje cúpula da ALBA com outro país integrado e centrada em projetos de desenvolvimento
Cumaná, Venezuela, 17 de abril
Os países da Alternativa Bolivariana para os Povos de Nossa América (ALBA) concluem hoje uma cúpula extraordinaria que abriu em seu primeiro dia as portas para sua moeda virtual, o Sucre.
Logo depois de uma jornada dedicada à análise da crise mundial, à ampliação do grupo a um sétimo país, San Vicente y las Granadinas, e ao respaldo a Cuba em sua luta contra o bloqueio dos Estados Unidos, a reunião se centra esta sexta-feira em projectos de desenvolvimento.
O presidente venezuelano, Hugo Chávez, adiantou na quinta-feira que estão relacionados para começar 10 projetos do setor alimenticio, área priorizada nos acordos de cooperacão e complementacão que dirigem a marcha da ALBA.
Essa projeção de cooperacão econômica se vê agora reforçada pela perspectiva do Sistema Único de Compensação Regional de Pagamentos (Sucre), que no futuro poderá converter-se em uma moeda virtual e até física, segundo previsões do grupo.
Junto ao acordo macro para guiar a iniciativa, se aprovou tambem a criacão de um Conselho Monetário Regional, uma unidade de conta comum, uma câmara central de compensação e um Fundo de Reservas e Convergência Comercial.
Além de San Vicente y las Granadinas, a ALBA está integrada pela Bolivia, Cuba, Dominica, Honduras, Nicarágua e Venezuela e participam da cúpula como observadores o Paraguai e o Equador.
A cúpula deu também um forte respaldo a Cuba, representada por seu presidente, Raúl Castro, com a condenação generalizada ao bloqueio estadunidense, um tema que o grupo adiantou que levará à Cúpula das Américas que começa esta sexta-feira.
Se prevê que, depois de uma jornada de análise dos projetos econômicos, os presidentes da ALBA, exceto Cuba, viajem à Trinidad y Tobago, onde se abre a Cúpula das Américas.
A ausência de Cuba neste fórum, como resultado das pressões dos Estados Unidos, foi também motivo de críticas do grupo e se espera seja um dos temas que levem estes mandatários à reunião de Trinidad y Tobago.
terça-feira, abril 14, 2009
Fulgor e Morte do Neoliberalismo

“Hegel disse em algum lugar que todos os grandes feitos e personagens da história universal acontecem, como diríamos, duas vezes. Mas esqueceu-se de acrescentar: uma vez como tragédia e a outra como farsa”. (Karl Marx em “O 18 brumário de Luís Bonaparte”).
Carlos Henrique de Pontes Vieira
Adam Smith (1723-1790), economista e filósofo escocês, tendo como cenário para a sua vida o século XVIII, conhecido como o Século das Luzes, é o mais importante teórico do liberalismo econômico. Autor do livro Uma Investigação Sobre a Natureza e a Causa da Riqueza das Nações, sua obra mais famosa, é referência, ainda hoje, para gerações de economistas. Nela ele procura demonstrar que a riqueza das nações advém da atuação de indivíduos que, movidos apenas por seu egoísmo, acabam por promover o crescimento econômico e a inovação da tecnologia. Smith costumava dizer que "não é da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas sim do empenho deles em promover seu auto-interesse". A dinâmica da economia seria regida por uma “mão invisível”.
Essa teoria vigorou cheia de fulgor até 1929 quando deu no que deu. Naquele ano o mundo assistia, estupefato, fortunas, da noite para o dia, virando pó com a quebra da Bolsa de Valores dos Estados Unidos, enquanto, no mundo acadêmico, já se discutia a mais nova teoria econômica de um inglês chamado John Maynard Keynes (1883-1946) cujas ideias reformadoras, em sua principal obra, Teoria Geral do Emprego, do juro e da Moeda, defendia o papel regulatório do Estado na economia para mitigar os efeitos das crises ciclicas na economia capitalista.
Essas ideias chocavam-se com as doutrinas econômicas até então vigentes naquela época, mas foi com elas que o presidente americano Franklin Delano Roosevelt formulou o seu New Deal, tirando os Estados Unidos da depressão e levando este país, em pouco mais de 5 anos, à condição de grande potencia mundial.
O papel regulador do Estado foi inspirado a partir da observação do sucesso econômico da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas que vinha de uma economia feudal e, com a revolução de 1917, se transformara em grande potência econômica e militar. Era, portanto, o preço que a elite capitalista ocidental tinha que pagar para concorrer com esta potência. O Estado se transformaria no alavancador da economia e no grande promotor de políticas sociais. Era o Estado do Bem-estar Social que durou pouco tempo, pois seria abandonado já após a segunda grande guerra, com o enfraquecimento do maior rival, a URSS, que havia perdido um contingente de 25 milhões de vidas humanas naquele conflito.
Foi ressurgindo, aos poucos, com novo fulgor jamais visto numa doutrina econômica, a velha doutrina liberal de Adam Smith, agora ideologicamente chamada de neoliberalismo, com uma força tão vigorosa, conquistando corações e mentes em todos os recantos do mundo ocidental, inclusive entre pensadores de esquerda, a partir da década de 70 até os anos 90, produzindo uma sensação de pensamento único, quando desmoronava o muro de Berlim e o império Soviético, que o cientista social Francis Fukuiama proclamou o fim da história
Agora estamos assistindo o que talvez não seja a derrocada do capitalismo, mas, pelo menos, a morte definitiva da doutrina neoliberal responsável por tantos males causados à humanidade, bem como o ressurgimento da doutrina keynesiana e a impressão de que não basta a tragédia, é preciso a farsa.
segunda-feira, abril 13, 2009
A Nova Toupeira

Resenha de Michael Lowy
A toupeira é um simpático mamífero que vive cavando túneis debaixo da terra e, quando menos se espera, abre uma brecha e ganha o ar livre. Esse trabalho de sapa e, sobretudo, essas irrupções imprevisíveis são provavelmente a razão por que Karl Marx escolheu esse insolente bichinho para símbolo da Revolução (com R maiúsculo).
Este belo livro é dedicado às aventuras da toupeira na América Latina. Seu autor, Emir Sader, ensaísta, politólogo, secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso), é não só um dos mais influentes cientistas sociais da América Latina, como também um militante marxista confesso e convicto, não arrependido, não “liberalizado” e não reconciliado com a ordem (capitalista) estabelecida. Como muitos de sua geração, Emir foi impactado pelo maravilhoso, inesperado e vulcânico aparecimento da toupeira na ilha de José Marti: um acontecimento que mudou a história de nosso continente. Ele, porém, é daqueles poucos que forma “vermelhos” nos anos 1960 e 1970 e não substituíram por água mineral – ou Coca-Cola! – o seu vinho tinto.
Sou mais crítico a Lula do que meu amigo Emir; mas acho que ele tem razão em tratar de entender “as formas concretas assumidas pela luta anticapitalista contemporânea”. A revolução nunca se repete da mesma maneira e hoje, na América Latina, o itinerário subterrâneo da toupeira passa sem dúvida pela Venezuela de Hugo Chávez, pela Bolívia de Evo Morales, pelo Equador de Rafael Correa. De que revolução se trata ? Che Guevara já havia escrito nas paredes do império, com letras de fogo, a frase: “Não há mais mudanças a fazer: ou revolução socialista ou caricatura de revolução”. É o equivalente profano daquela fórmula misteriosa surgida nos muros do palácio do rei da Babilônia: “Mene, mene, tekel upharsin”, interpretada pelo profeta Daniel como: “Teus dias estão contados”. Emir não esqueceu essa bela lição, que foi também a de José Carlos Mariátegui, de Farabundo Martí e de tantos outros. No coração de seu livro encontra-se essa bandeira: “O socialismo permanecerá no horizonte histórico como alternativa potencial ou real, porque é, em última instância, o anticapitalismo, sua negação e sua superação dialética”. Do fundo de seu túnel, a touperia, leitora atenta da Ideologia alemã e de O capital, aprova com pés e mãos.
A quem não aceita a infâmia capitalista como único futuro para os povos da América Latina, este livro vai interessar; ele nos ajuda a entender por onde passa “os processos de transformação revolucionária de nossa realidade”.
A toupeira é um simpático mamífero que vive cavando túneis debaixo da terra e, quando menos se espera, abre uma brecha e ganha o ar livre. Esse trabalho de sapa e, sobretudo, essas irrupções imprevisíveis são provavelmente a razão por que Karl Marx escolheu esse insolente bichinho para símbolo da Revolução (com R maiúsculo).
Este belo livro é dedicado às aventuras da toupeira na América Latina. Seu autor, Emir Sader, ensaísta, politólogo, secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso), é não só um dos mais influentes cientistas sociais da América Latina, como também um militante marxista confesso e convicto, não arrependido, não “liberalizado” e não reconciliado com a ordem (capitalista) estabelecida. Como muitos de sua geração, Emir foi impactado pelo maravilhoso, inesperado e vulcânico aparecimento da toupeira na ilha de José Marti: um acontecimento que mudou a história de nosso continente. Ele, porém, é daqueles poucos que forma “vermelhos” nos anos 1960 e 1970 e não substituíram por água mineral – ou Coca-Cola! – o seu vinho tinto.
Sou mais crítico a Lula do que meu amigo Emir; mas acho que ele tem razão em tratar de entender “as formas concretas assumidas pela luta anticapitalista contemporânea”. A revolução nunca se repete da mesma maneira e hoje, na América Latina, o itinerário subterrâneo da toupeira passa sem dúvida pela Venezuela de Hugo Chávez, pela Bolívia de Evo Morales, pelo Equador de Rafael Correa. De que revolução se trata ? Che Guevara já havia escrito nas paredes do império, com letras de fogo, a frase: “Não há mais mudanças a fazer: ou revolução socialista ou caricatura de revolução”. É o equivalente profano daquela fórmula misteriosa surgida nos muros do palácio do rei da Babilônia: “Mene, mene, tekel upharsin”, interpretada pelo profeta Daniel como: “Teus dias estão contados”. Emir não esqueceu essa bela lição, que foi também a de José Carlos Mariátegui, de Farabundo Martí e de tantos outros. No coração de seu livro encontra-se essa bandeira: “O socialismo permanecerá no horizonte histórico como alternativa potencial ou real, porque é, em última instância, o anticapitalismo, sua negação e sua superação dialética”. Do fundo de seu túnel, a touperia, leitora atenta da Ideologia alemã e de O capital, aprova com pés e mãos.
A quem não aceita a infâmia capitalista como único futuro para os povos da América Latina, este livro vai interessar; ele nos ajuda a entender por onde passa “os processos de transformação revolucionária de nossa realidade”.
sexta-feira, abril 10, 2009
A Nova América do Sul
Ignacio Ramonet - Le Monde Diplomatique
Esse êxito eleitoral demonstra também que o FMLN teve razão em abandonar, em 1992 e no contexto do fim da guerra fria, a opção guerrilheira (depois de um conflito de doze anos, que causou 75.000 mortos) e ao adotar a via do combate político e das urnas. A essas alturas, na região, um movimento guerrilheiro armado está fora de lugar. Essa é a mensagem subliminar que essa vitória do FMLN transmite particularmente às FARC, da Colômbia.
Por último, confirma que os ventos favoráveis às esquerdas continuam soprando com força na América do Sul. Desde a histórica vitória de Hugo Chávez na Venezuela há dez anos, abrindo caminho, e apesar das campanhas de terror midiático, mais de uma dezena de Presidentes progressistas têm sido eleitos pelo voto popular com programas que anunciam transformações sociais de grande amplitude, redistribuição mais justa da riqueza e integração política dos setores sociais até então marginalizados ou excluídos.
Quando no resto do mundo, e muito particularmente na Europa, as esquerdas, distanciadas das classes populares e comprometidas com o modelo neoliberal causador da crise atual, parecem esgotadas e desprovidas de ideias, na América do Sul, estimulados pela poderosa energia do movimento social, os novos socialistas do século XXI transbordam de criatividade política e social. Estamos assistindo a um renascimento, a uma verdadeira refundação desse continente e ao ato final de sua emancipação, iniciada há dois séculos por Simón Bolívar e pelos Libertadores.
Apesar de que muitos europeus (até de esquerda) continuem ignorando -devido à colossal muralha que os grandes meios de comunicação edificaram para ocultá-lo-, a América do Sul tem se convertido na região mais progressista do planeta, onde mais mudanças estão acontecendo em favor das classes populares e onde mais reformas estruturais estão sendo adotadas para sair da dependência e do subdesenvolvimento.
A partir da experiência da Revolução Bolivariana da Venezuela, e com o impulso dos presidentes Evo Morales, da Bolívia, e Rafael Correa, do Equador, tem se produzido um despertar dos povos indígenas. Da mesma forma, esses três Estados tem se dotado significativamente pela via de referendo e de novas Constituições.
Removida em seus cimentos por ventos de esperança e de justiça, a América do Sul tem dado também um rumo novo ao grande sonho de integração dos povos, não somente dos mercados. Além do Mercosul, que agrupa aos 260 milhões de habitantes do Brasil, da Argentina, do Paraguai, do Uruguai e da Venezuela, a realização mais inovadora para favorecer a integração é a Alternativa bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba). Seus membros conseguiram uma estabilidade que tem lhes permitido consagrar-se à luta contra a pobreza, a miséria, a marginalidade, o analfabetismo, para assegurar aos cidadãos educação, saúde, habitação e emprego dignos. Tem obtido também, graças ao Projeto Petrosul, uma maior coesão energética e também um aumento significativo de sua produção agrícola para avançar em direção á soberania alimentar. Graças à criação do banco do Sul e de uma Zona Monetária Comum (ZMC), progridem igualmente para a criação de uma moeda comum, cujo nome poderia ser ‘Sucre’ .
Vários governos sulamericanos deram, no dia 9 de março, um passo a mais que parecia inconcebível: decidiram constituir o Conselho de Defesa Sulamericano (CDS), um organismo de cooperação militar criado através da união de Nações Sulamericanas (Unasul), organização fundada em Brasília em maio de 2008.
Graças a esses recentes instrumentos de cooperação, a nova América do Sul chega mais unida do que nunca ao grande encontro com Estados Unidos na Cúpula das Américas que se realizará em Puerto España (Trinidad y Tobago), de 17 a 19 de abril de 2009. Na ocasião, os mandatários sulamericanos debaterão com o novo presidente estadunidense Barack Obama, que exporá sua visão sobre as relações com seus vizinhos do Sul.
Em sua recente visita a Washington, o Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, pediu a Obama que levantasse por completo o embargo econômico contra Cuba, argumentando que é algo ao que se opõem todos os países da região. No passado 11 de março, Washington havia anunciado que os cubanoamericanos poderão visitar a quem desejarem na Ilha uma vez por ano e permanecer nela tanto tempo quanto queiram. Apesar de que durante sua campanha eleitoral, Obama prometeu manter o embargo, parece que se está perto de uma era de aproximação entre Havana e Washington. Já era hora. Fica pendente normatizar também as relações com a Venezuela e com a Bolívia. De maneira mais ampla, Washington deve admitir que a ideia de ‘pátio traseiro’ passou para a história. Que os povos da América do Sul se colocaram em marcha. E que dessa vez não se deterão.
Em El Salvador, a recente vitória de Mauricio Funes, candidato da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), tem um triplo significado. Por primeira vez, a esquerda consegue arrebatar o mandato da direita dura que sempre havia dominado esse país desigual (0,3% dos salvadorenhos abocanha 44% da riqueza), com mais de um terço dos habitantes sob o umbral de pobreza e outro terço obrigado a emigrar para os Estados Unidos.
Esse êxito eleitoral demonstra também que o FMLN teve razão em abandonar, em 1992 e no contexto do fim da guerra fria, a opção guerrilheira (depois de um conflito de doze anos, que causou 75.000 mortos) e ao adotar a via do combate político e das urnas. A essas alturas, na região, um movimento guerrilheiro armado está fora de lugar. Essa é a mensagem subliminar que essa vitória do FMLN transmite particularmente às FARC, da Colômbia.
Por último, confirma que os ventos favoráveis às esquerdas continuam soprando com força na América do Sul. Desde a histórica vitória de Hugo Chávez na Venezuela há dez anos, abrindo caminho, e apesar das campanhas de terror midiático, mais de uma dezena de Presidentes progressistas têm sido eleitos pelo voto popular com programas que anunciam transformações sociais de grande amplitude, redistribuição mais justa da riqueza e integração política dos setores sociais até então marginalizados ou excluídos.
Quando no resto do mundo, e muito particularmente na Europa, as esquerdas, distanciadas das classes populares e comprometidas com o modelo neoliberal causador da crise atual, parecem esgotadas e desprovidas de ideias, na América do Sul, estimulados pela poderosa energia do movimento social, os novos socialistas do século XXI transbordam de criatividade política e social. Estamos assistindo a um renascimento, a uma verdadeira refundação desse continente e ao ato final de sua emancipação, iniciada há dois séculos por Simón Bolívar e pelos Libertadores.
Apesar de que muitos europeus (até de esquerda) continuem ignorando -devido à colossal muralha que os grandes meios de comunicação edificaram para ocultá-lo-, a América do Sul tem se convertido na região mais progressista do planeta, onde mais mudanças estão acontecendo em favor das classes populares e onde mais reformas estruturais estão sendo adotadas para sair da dependência e do subdesenvolvimento.
A partir da experiência da Revolução Bolivariana da Venezuela, e com o impulso dos presidentes Evo Morales, da Bolívia, e Rafael Correa, do Equador, tem se produzido um despertar dos povos indígenas. Da mesma forma, esses três Estados tem se dotado significativamente pela via de referendo e de novas Constituições.
Removida em seus cimentos por ventos de esperança e de justiça, a América do Sul tem dado também um rumo novo ao grande sonho de integração dos povos, não somente dos mercados. Além do Mercosul, que agrupa aos 260 milhões de habitantes do Brasil, da Argentina, do Paraguai, do Uruguai e da Venezuela, a realização mais inovadora para favorecer a integração é a Alternativa bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba). Seus membros conseguiram uma estabilidade que tem lhes permitido consagrar-se à luta contra a pobreza, a miséria, a marginalidade, o analfabetismo, para assegurar aos cidadãos educação, saúde, habitação e emprego dignos. Tem obtido também, graças ao Projeto Petrosul, uma maior coesão energética e também um aumento significativo de sua produção agrícola para avançar em direção á soberania alimentar. Graças à criação do banco do Sul e de uma Zona Monetária Comum (ZMC), progridem igualmente para a criação de uma moeda comum, cujo nome poderia ser ‘Sucre’ .
Vários governos sulamericanos deram, no dia 9 de março, um passo a mais que parecia inconcebível: decidiram constituir o Conselho de Defesa Sulamericano (CDS), um organismo de cooperação militar criado através da união de Nações Sulamericanas (Unasul), organização fundada em Brasília em maio de 2008.
Graças a esses recentes instrumentos de cooperação, a nova América do Sul chega mais unida do que nunca ao grande encontro com Estados Unidos na Cúpula das Américas que se realizará em Puerto España (Trinidad y Tobago), de 17 a 19 de abril de 2009. Na ocasião, os mandatários sulamericanos debaterão com o novo presidente estadunidense Barack Obama, que exporá sua visão sobre as relações com seus vizinhos do Sul.
Em sua recente visita a Washington, o Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, pediu a Obama que levantasse por completo o embargo econômico contra Cuba, argumentando que é algo ao que se opõem todos os países da região. No passado 11 de março, Washington havia anunciado que os cubanoamericanos poderão visitar a quem desejarem na Ilha uma vez por ano e permanecer nela tanto tempo quanto queiram. Apesar de que durante sua campanha eleitoral, Obama prometeu manter o embargo, parece que se está perto de uma era de aproximação entre Havana e Washington. Já era hora. Fica pendente normatizar também as relações com a Venezuela e com a Bolívia. De maneira mais ampla, Washington deve admitir que a ideia de ‘pátio traseiro’ passou para a história. Que os povos da América do Sul se colocaram em marcha. E que dessa vez não se deterão.
sábado, abril 04, 2009
Soneto da luta pelo direito


Carlos Henrique de Pontes Vieira
Dedicado ao Máuri de Carvalho
Com que armas, meu velho camarada,
Partimos para essa luta armada
Em busca da mais-valia roubada?
E quem nos segue nesta empreitada
Justa, a luta proletariada,
Contra a tal burguesia desalmada?
Não tendo as condições, subjetiva
E objetiva, a pugna reaviva
Com o vigor da pena afiada
Que a verdade seja, enfim, propalada,
A ideologia desmistificada,
A luta pelo direito travada
Vigorosa, constante, abnegada.
É o que nos resta, pois, meu camarada!
Partimos para essa luta armada
Em busca da mais-valia roubada?
E quem nos segue nesta empreitada
Justa, a luta proletariada,
Contra a tal burguesia desalmada?
Não tendo as condições, subjetiva
E objetiva, a pugna reaviva
Com o vigor da pena afiada
Que a verdade seja, enfim, propalada,
A ideologia desmistificada,
A luta pelo direito travada
Vigorosa, constante, abnegada.
É o que nos resta, pois, meu camarada!
segunda-feira, março 30, 2009
A boa fonte

Tendo sentido o inconveniente da dependência, prometi a mim mesmo que não mais me haveria de expor a ela." No original: "Ayant senti l'inconvenient de la dépendence, je me promis bien de ne m'y plus exposer". ( Jean-Jacques Rousseau)
Carlos Henrique de Pontes Vieira
Cedo percebi as enormes diferenças sociais entre nós, mas só há alguns anos, com o aperfeiçoamento na elaboração dos índices econômicos, é que fiquei sabendo que somos quase a lanterna do mundo em distribuição de renda. Impregnado desse mal-estar e na esperança de uma política que melhorasse esse indicador é que sempre fui eleitor da esquerda.
Tenho amigos e conhecidos de todos os matizes políticos, desde a extrema esquerda até a extrema direita. Esses extremos sempre acharam que estou do outro lado. Os da esquerda me chamam de burguês e os da direita me chamam de vermelho. Sempre foi assim, desde os tempos da faculdade.
Eu gostava de compor ao piano e um dia compus uma canção em homenagem às boas temporadas em Fleicheiras. Essa canção chama-se "Dolce far niente" que é uma expressão cunhada por um escritor considerado burguês pela esquerda. Um amigo comunista quando a ouviu pela primeira vez, apontou os dedos como uma arma na minha direção e vi seus lábios fuzilarem: “¡ paredon !"
Na eleição do Collor, quando amargávamos a derrota do Lula, compus uma quadrinha: Dias melhores virão / Pra aqueles que ora choram / Se os crisântemos descoram / Tolos "descollorirão". Quando um tio muito querido, "collorido", a ouviu, esbravejou: "comunista, pior ainda porque é poeta !" Afinal, não sou nem uma coisa nem outra.
Na década de setenta, entrei em contato com o pensamento político de Paulo Bonavides de quem fui aluno na disciplina Ciência Política da Escola de Administração da UECE, e com o pensamento econômico de Celso Furtado, através de um de seus livros estudado em sala de aula na disciplina de Introdução à Economia. Imediatamente me identifiquei com esses dois patrimônios da cultura nacional, paraibanos de nascimento, homens de sensibilidade que se debruçaram sobre as ciências que escolheram e, brilhantemente, nos oferecem soluções para os nossos seculares entraves político e econômico, mas que insistimos em refutá-las.
Encantei-me com o pensamento do professor Bonavides, pela radicalidade de sua democracia rousseauniana, a sua proposta do quarto nível federativo regional; e de Celso Furtado, por seus estudos avançados na Cepal, com uma teoria desenvolvimentista para o Brasil e a América Latina. Esses dois pensamentos estão hoje mais do que justificados pelas seguidas crises na política e na economia.
Essa é a fonte boa e cristalina de que tenho me servido para um aperfeiçoamento como cidadão com alguma consciência política, social e econômica. Pensadores da melhor estirpe, prata da casa, que deveriam ser lidos e assimilados pela grande maioria de nós, brasileiros, se tivéssemos amor à independência, à justiça e respeito ao que é nosso.
Tenho amigos e conhecidos de todos os matizes políticos, desde a extrema esquerda até a extrema direita. Esses extremos sempre acharam que estou do outro lado. Os da esquerda me chamam de burguês e os da direita me chamam de vermelho. Sempre foi assim, desde os tempos da faculdade.
Eu gostava de compor ao piano e um dia compus uma canção em homenagem às boas temporadas em Fleicheiras. Essa canção chama-se "Dolce far niente" que é uma expressão cunhada por um escritor considerado burguês pela esquerda. Um amigo comunista quando a ouviu pela primeira vez, apontou os dedos como uma arma na minha direção e vi seus lábios fuzilarem: “¡ paredon !"
Na eleição do Collor, quando amargávamos a derrota do Lula, compus uma quadrinha: Dias melhores virão / Pra aqueles que ora choram / Se os crisântemos descoram / Tolos "descollorirão". Quando um tio muito querido, "collorido", a ouviu, esbravejou: "comunista, pior ainda porque é poeta !" Afinal, não sou nem uma coisa nem outra.
Na década de setenta, entrei em contato com o pensamento político de Paulo Bonavides de quem fui aluno na disciplina Ciência Política da Escola de Administração da UECE, e com o pensamento econômico de Celso Furtado, através de um de seus livros estudado em sala de aula na disciplina de Introdução à Economia. Imediatamente me identifiquei com esses dois patrimônios da cultura nacional, paraibanos de nascimento, homens de sensibilidade que se debruçaram sobre as ciências que escolheram e, brilhantemente, nos oferecem soluções para os nossos seculares entraves político e econômico, mas que insistimos em refutá-las.
Encantei-me com o pensamento do professor Bonavides, pela radicalidade de sua democracia rousseauniana, a sua proposta do quarto nível federativo regional; e de Celso Furtado, por seus estudos avançados na Cepal, com uma teoria desenvolvimentista para o Brasil e a América Latina. Esses dois pensamentos estão hoje mais do que justificados pelas seguidas crises na política e na economia.
Essa é a fonte boa e cristalina de que tenho me servido para um aperfeiçoamento como cidadão com alguma consciência política, social e econômica. Pensadores da melhor estirpe, prata da casa, que deveriam ser lidos e assimilados pela grande maioria de nós, brasileiros, se tivéssemos amor à independência, à justiça e respeito ao que é nosso.
quinta-feira, março 26, 2009
Quem é responsável pela agonia de "Pachamama" ?

A mentira estaria a caminho há 10 anos, a verdade a alcançaria em uma manhã de caminhada (provérbio africano)
Carlos Henrique de Pontes Vieira
O grande responsável pela alarmante crise ambiental que vivemos hoje é o modo de produção que se impôs a partir da revolução industrial (econômica) na metade do século XVIII, se tornando hegemônico com a revolução da informática (tecno-científica) no final do século XX. A ideologia que dá suporte a este modo de produção vem tentando introjetar na consciência dos povos submetidos a ele, a idéia de que não há melhor modo de produção do que ele e que o crescimento quantitativo impulsionado por intermédio dele não tem limites.
O atual modo de produção tem como prioridades: i.) a busca do lucro; ii.) a eficácia econômica; iii.) o crescimento quantitativo; iv.) a dominação da natureza através da ciência e da tecnologia; e como discurso ideológico: i.) a ciência e a tecnologia nos conduzem ao progresso; ii.) o mercado é natural e soberano; iii.) a desregulamentação libera; iv.) a competição é da própria natureza da vida.
Foram anos de mentira ideológica que há algum tempo vem sendo desmascarada pela verdade que está se impondo de forma assustadora: danos ecológicos ultrapassam os limites da reversibilidade, sinalizando que estamos na iminência do desastre total. Eis a razão da escolha do provérbio africano como epígrafe, acima.
A bem da verdade, esse modo de produção é um sistema hostil à humanidade e ao planeta terra que, dando primazia à economia, pilha e aniquila a natureza, esta devendo sempre estar a serviço da eficácia daquela. Ademais, a fé na ciência e na tecnologia é tão grande e irracional que se supõe que a natureza pilhada e aniquilada pode ser artificialmente recriada.
O que estamos constatando é que este modo de produção é um sistema condenável por promover desigualdades gritantes e por operar uma confusão entre os fins e os meios: seres humanos que deveriam ser o fim são transformados em meios, simples instrumentos; a ciência, a tecnologia, o mercado e o lucro que deveriam ser os meios são considerados finalidades em si mesmos; enfim, um sistema também condenado por seu caráter auto-destrutivo e matricida porque assassina "Pachamama" , a forma carinhosa que os Incas adotavam para chamar a nossa Mãe-Natureza.
Carlos Henrique de Pontes Vieira
O grande responsável pela alarmante crise ambiental que vivemos hoje é o modo de produção que se impôs a partir da revolução industrial (econômica) na metade do século XVIII, se tornando hegemônico com a revolução da informática (tecno-científica) no final do século XX. A ideologia que dá suporte a este modo de produção vem tentando introjetar na consciência dos povos submetidos a ele, a idéia de que não há melhor modo de produção do que ele e que o crescimento quantitativo impulsionado por intermédio dele não tem limites.
O atual modo de produção tem como prioridades: i.) a busca do lucro; ii.) a eficácia econômica; iii.) o crescimento quantitativo; iv.) a dominação da natureza através da ciência e da tecnologia; e como discurso ideológico: i.) a ciência e a tecnologia nos conduzem ao progresso; ii.) o mercado é natural e soberano; iii.) a desregulamentação libera; iv.) a competição é da própria natureza da vida.
Foram anos de mentira ideológica que há algum tempo vem sendo desmascarada pela verdade que está se impondo de forma assustadora: danos ecológicos ultrapassam os limites da reversibilidade, sinalizando que estamos na iminência do desastre total. Eis a razão da escolha do provérbio africano como epígrafe, acima.
A bem da verdade, esse modo de produção é um sistema hostil à humanidade e ao planeta terra que, dando primazia à economia, pilha e aniquila a natureza, esta devendo sempre estar a serviço da eficácia daquela. Ademais, a fé na ciência e na tecnologia é tão grande e irracional que se supõe que a natureza pilhada e aniquilada pode ser artificialmente recriada.
O que estamos constatando é que este modo de produção é um sistema condenável por promover desigualdades gritantes e por operar uma confusão entre os fins e os meios: seres humanos que deveriam ser o fim são transformados em meios, simples instrumentos; a ciência, a tecnologia, o mercado e o lucro que deveriam ser os meios são considerados finalidades em si mesmos; enfim, um sistema também condenado por seu caráter auto-destrutivo e matricida porque assassina "Pachamama" , a forma carinhosa que os Incas adotavam para chamar a nossa Mãe-Natureza.
Reflexões sobre a América Latina

A diferença entre a esquerda e a direita está na finalidade das ideologias. A esquerda tem a meta generosa da igualdade; a direita não tem outra meta, que não seja a da permanência da opressão, em nome do direito da força. (Bertrand Russel)
Carlos Henrique de Pontes Vieira
Sabemos que os países da América Latina vivem hoje um processo de mudanças profundas, diversificadas e originais. Alguns analistas questionam se é um giro à esquerda, dada as diferenças de cada um deles, pois não se poderiam comparar as ações e as retóricas de seus líderes, sendo impossível querer meter no mesmo saco Tabaré Vázquez do Uruguai com Hugo Chávez da Venezuela; Cristina Kirchner da Argentina com Evo Morales da Bolívia; Michelle Bachelet do Chile com Rafael Correa do Equador ou Lula, aqui do Brasil. Há ainda os novos eleitos da esquerda paraguaia e salvadorenha, Fernando Lugo e Maurício Funes. Uns aceitam a ALCA, os TLC e outros os repudiam de plano, embora tendo um discurso antiimperialista, mantém excelentes relações comerciais com o império.
Carlos Henrique de Pontes Vieira
Sabemos que os países da América Latina vivem hoje um processo de mudanças profundas, diversificadas e originais. Alguns analistas questionam se é um giro à esquerda, dada as diferenças de cada um deles, pois não se poderiam comparar as ações e as retóricas de seus líderes, sendo impossível querer meter no mesmo saco Tabaré Vázquez do Uruguai com Hugo Chávez da Venezuela; Cristina Kirchner da Argentina com Evo Morales da Bolívia; Michelle Bachelet do Chile com Rafael Correa do Equador ou Lula, aqui do Brasil. Há ainda os novos eleitos da esquerda paraguaia e salvadorenha, Fernando Lugo e Maurício Funes. Uns aceitam a ALCA, os TLC e outros os repudiam de plano, embora tendo um discurso antiimperialista, mantém excelentes relações comerciais com o império.
Entretanto, constatamos que algo novo de suma importância e comum a todos eles está acontecendo. Acredito que o que dá consistência e um forte sentido de unidade a toda esta profunda mundança que vive a maioría de nossos países, é o repúdio claro, unânime e contundente ao que se resolveu chamar de CONSENSO DE WASHINGTON, bem como o clamor por JUSTIÇA SOCIAL. É aí onde podemos encontrar a unidade, mesmo com as peculiaridades de cada país.
O Consenso de Washington estigmatizou o "Estado de bem-estar social" preconizado na última grande teoria econômica elaborada por John Maynard Keynes, buscando sistematicamente o seu enfraquecimento; relegou a área social, aumentando a pobreza de nossos povos; privilegiou o capital sobre o trabalho desde a primeira experiência no Chile de Pinochet. Em termos de valores, o "ter" prevaleceu sobre o "ser", e os desejos consumistas e individualistas foram abafando o melhor de nossas culturas tradicionais.
O neo-liberalismo defendido pelos países do centro capitalista ocidental e assimilado pelos da periferia exigiu sempre a abertura total de nossas fronteiras aos produtos dos países centrais, sem a contrapartida da abertura das suas fronteiras aos nossos produtos, aumentando assim o comércio informal, a desocupação e a precariedade no trabalho. Para obter créditos internacionais obrigava-se a privatização das empresas públicas e dos serviços básicos. Através desses acordos, os países poderosos defenderam sempre os interesses das multinacionais em detrimento do direito dos povos. Exigiram eliminar de nossos governos todo vestigio de protecionismo, enquanto EE.UU. e Europa seguíam subvencionando, por exemplo, as suas agriculturas com vultosas somas de dólares, anulando toda possibilidade de competitividade de nossos produtos no mercado internacional.
As consequências desastrosas dessa política econômica foram claras: desmantelamento do Estado, enfraquecimento da área social (saúde e educação), desocupação, marginalização e exclusão social, aumento do fosso social por concentração excessiva da riqueza em poucas mãos, dependência externa, submissão aos interesses das multinacionais, exploração irracional dos recursos naturais a ponto de corrermos o risco de extinção, aumento da corrupção e da agressividade social, decadência moral... e por aí vai.
Relendo o livro “Direita e Esquerda, Razões e Significados de uma Distinção” e resumindo o que pensa o seu autor, o jusfilósofo italiano Norberto Bobbio, no que se refere a esses dois conceitos, ele nos sugere o seguinte: os termos continuam atuais, porém com sentidos diversos, já que os paradigmas do nosso tempo são outros. Então, a direita elegeria a ordem social como valor prioritário, já a esquerda, ao contrário, elegeria a justiça social prioritariamente, vindo a ordem social a reboque. Concluímos, pois, que o que ocorre na América Latina é realmente um giro à esquerda.
O que buscam os governos de nossos países? Buscam o que os seus povos anseiam: fortalecimento do Estado; máxima atenção ao setor social; defesa dos recursos naturais e dos interesses do país; controle e fiscalização das empresas multinacionais, orientação do crescimento econômico para um melhoramento na qualidade de vida de todos, sem exclusão; condicionamento do capital e das inversões aos interesses produtivos do país; fomento das exportações e da produção nacional; desenvolvimento integral, harmônico e auto-sustentado que proporcione a justiça social.
Eis aí os grandes ideais e anseios do povo latino americano e que movem atualmente os governos da região. Acredito que, feita a escolha da justiça social, seja sim, um giro à esquerda, pelo menos no sentido asseverado por Norberto Bobbio.
domingo, março 15, 2009
La pobreza


Ay no quieres,
te asusta
la pobreza,
no quieres
ir con zapatos rotos al mercado
y volver con el viejo vestido.
Amor, no amamos,
como quieren los ricos,
la miseria. Nosotros
la extirparemos como diente maligno
que hasta ahora ha mordido el corazón del hombre.
Pero no quiero
que la temas.
Si llega por mi culpa a tu morada,
si la pobreza expulsa
tus zapatos dorados,
que no expulse tu risa que es el pan de mi vida.
Si no puedes pagar el alquiler
sal al trabajo con paso orgulloso,
y piensa, amor, que yo te estoy mirando
y somos juntos la mayor riqueza
que jamás se reunió sobre la tierra.
sábado, março 14, 2009
Mi flor en Santiago (un bolero)
Carlos HP Vieira
Si tú supieras de este amor
Comprenderías al fin
Que mi deseo es, sin embargo, dolor
Cuando no estás aquí junto a mi
Pero si estás a mi lado, amor
Siento placer y pasión
Nace así una flor
Andina en mi corazón
Si tú supieras de este amor
Comprenderías al fin
Que mi deseo es, sin embargo, dolor
Cuando no estás aquí junto a mi
Pero si estás a mi lado, amor
Siento placer y pasión
Nace así una flor
Andina en mi corazón
Cartagena, mi amor ! (una salsa)

Carlos Henrique de Pontes Vieira
Hoy me voy a Cartagena
Cartagena, mi amor
Yo voy a bailar la salsa
Con una chica que allá se quedó
En mi cuerpo un viejo ron
La pasión en mi corazón
Con la chica en mis brazos
Ya bailo y doy los primeros pasos
Cartagena
Preséntale al mundo tu color
Mi morena
Me deja muy loco tu olor
La luna que allá se exhibe
Y la noche del Caribe
Contemplan a mi alma llena
De claro amor a Cartagena
sexta-feira, junho 20, 2008
El paradigma posneoliberal

Guatemala
Mario Roberto Morales
Se acabó la “era” neoliberal: esa prolongada estafa planetaria iniciada por Reagan y Tatcher, y continuada por notorios ladrones como, entre otros, Salinas en México y Menem en Argentina, con las consecuencias desastrosas a la vista, incluida la crisis financiera estadounidense.
Se acabó la era de la ligereza económica, de la irresponsabilidad estatal ante la economía. Se acabó el mito de que el mercado es un mecanismo capaz de regularse a sí mismo. Hoy más que nunca es obvio que si se deja al mercado sin regulación, ocurre lo que tenemos a la vista: baja productividad y alta especulación, bajo consumo y alto desempleo, pobreza generalizada y riqueza concentrada.
Ante esto, no hay duda de que el Estado debe volver a jugar su papel rector de la sociedad, incluida la economía y los mercados, pero sin repetir los errores que llevaron a la estafa neoliberal. Se impone, pues, un cambio de paradigma económico, no para instaurar el socialismo sino para salvar al capitalismo de sí mismo, democratizándolo en lo posible, a fin de salir de la crisis. Este fue el desafío al que respondió Keynes, y al que debemos responder ahora debido al carácter cíclico de las crisis capitalistas.
Ante esta crisis, nuestros Estados deben estimular la pequeña y mediana empresa, y velar por la justicia social, es decir, la igualdad de oportunidades para todos y no sólo para unas cuantas familias de ricachones acaparadores que impiden que surjan nuevos empresarios y que haya más gente próspera, con lo cual asfixian a las capas medias y expulsan de su país a millones de trabajadores a quienes les toca mantener la economía nacional desde la distancia, pues esos ricachones acaparadores no son capaces de darles empleo y tampoco dejan que otros empresarios intenten hacerlo.
El nuevo paradigma económico reclama un nuevo paradigma político: un Estado fuerte (no grande) con poder económico y capacidad para hacer cumplir las leyes y regulaciones que estimulen el crecimiento masivo de la pequeña y mediana empresa, para no esperar a que a los monopolistas les dé la gana iniciar nuevos rubros productivos. En otras palabras, se necesita un genuino Estado de derecho, eficiente y probo, cuya dirección recaiga en políticos que no busquen valerse de él para convertirse en nuevos ricos, sino que sean auténticos estadistas: individuos capaces de garantizar el bienestar de las mayorías nacionales en lugar de limitarse a servir a los intereses elitistas, a los que sólo les importa la ampliación creciente de sus márgenes de lucro y no los costos sociales que eso implique.
En lo político, pues, hay que fortalecer el Estado. Y en lo económico, fomentar la pequeña y mediana empresa. Esto es lo que toca hacer ante a la crisis. Nuestros países necesitan volver a ciertos rubros productivos que fueron sustituidos por los que requerían los mercados internacionales (hoy deprimidos) para, así, consolidar un mercado interno vigoroso que involucre a más gente en el circuito de producción, circulación y consumo de mercancías y, a largo plazo, a la mayoría en el trabajo calificado y el salario justo.
Así como a la izquierda conservadora le costó aceptar el colapso soviético, al neoliberalismo le tomará tiempo aceptar el colapso del capitalismo mundial. El socialismo sólo es posible con un alto grado de desarrollo de las fuerzas productivas. Por eso, lo que toca hacer es democratizar en lo posible el sistema colapsado, sentando así las bases de un futuro económico, político y social más próspero y equitativo.
Mario Roberto Morales
Se acabó la “era” neoliberal: esa prolongada estafa planetaria iniciada por Reagan y Tatcher, y continuada por notorios ladrones como, entre otros, Salinas en México y Menem en Argentina, con las consecuencias desastrosas a la vista, incluida la crisis financiera estadounidense.
Se acabó la era de la ligereza económica, de la irresponsabilidad estatal ante la economía. Se acabó el mito de que el mercado es un mecanismo capaz de regularse a sí mismo. Hoy más que nunca es obvio que si se deja al mercado sin regulación, ocurre lo que tenemos a la vista: baja productividad y alta especulación, bajo consumo y alto desempleo, pobreza generalizada y riqueza concentrada.
Ante esto, no hay duda de que el Estado debe volver a jugar su papel rector de la sociedad, incluida la economía y los mercados, pero sin repetir los errores que llevaron a la estafa neoliberal. Se impone, pues, un cambio de paradigma económico, no para instaurar el socialismo sino para salvar al capitalismo de sí mismo, democratizándolo en lo posible, a fin de salir de la crisis. Este fue el desafío al que respondió Keynes, y al que debemos responder ahora debido al carácter cíclico de las crisis capitalistas.
Ante esta crisis, nuestros Estados deben estimular la pequeña y mediana empresa, y velar por la justicia social, es decir, la igualdad de oportunidades para todos y no sólo para unas cuantas familias de ricachones acaparadores que impiden que surjan nuevos empresarios y que haya más gente próspera, con lo cual asfixian a las capas medias y expulsan de su país a millones de trabajadores a quienes les toca mantener la economía nacional desde la distancia, pues esos ricachones acaparadores no son capaces de darles empleo y tampoco dejan que otros empresarios intenten hacerlo.
El nuevo paradigma económico reclama un nuevo paradigma político: un Estado fuerte (no grande) con poder económico y capacidad para hacer cumplir las leyes y regulaciones que estimulen el crecimiento masivo de la pequeña y mediana empresa, para no esperar a que a los monopolistas les dé la gana iniciar nuevos rubros productivos. En otras palabras, se necesita un genuino Estado de derecho, eficiente y probo, cuya dirección recaiga en políticos que no busquen valerse de él para convertirse en nuevos ricos, sino que sean auténticos estadistas: individuos capaces de garantizar el bienestar de las mayorías nacionales en lugar de limitarse a servir a los intereses elitistas, a los que sólo les importa la ampliación creciente de sus márgenes de lucro y no los costos sociales que eso implique.
En lo político, pues, hay que fortalecer el Estado. Y en lo económico, fomentar la pequeña y mediana empresa. Esto es lo que toca hacer ante a la crisis. Nuestros países necesitan volver a ciertos rubros productivos que fueron sustituidos por los que requerían los mercados internacionales (hoy deprimidos) para, así, consolidar un mercado interno vigoroso que involucre a más gente en el circuito de producción, circulación y consumo de mercancías y, a largo plazo, a la mayoría en el trabajo calificado y el salario justo.
Así como a la izquierda conservadora le costó aceptar el colapso soviético, al neoliberalismo le tomará tiempo aceptar el colapso del capitalismo mundial. El socialismo sólo es posible con un alto grado de desarrollo de las fuerzas productivas. Por eso, lo que toca hacer es democratizar en lo posible el sistema colapsado, sentando así las bases de un futuro económico, político y social más próspero y equitativo.
quinta-feira, junho 05, 2008
Botando as barbas de molho

“Último dia do despotismo e primeiro da mesma coisa” (Pichação em um muro de Quito)
Carlos Henrique de Pontes Vieira
Deus queira que eu esteja enganado, mas não há indícios de que eu possa estar. Pelas seguintes razões: i) as declarações dos três candidatos à presidência da nação que lidera e defende o "status quo" da geopolítica do mundo atual, com todas as armas que lhe estão às mãos; ii) a história de interferências e as atuais; iii) o contumaz desrespeito ao princípio de autodeterminação dos povos; qualquer que seja o candidato vencedor, tudo me faz crer que as coisas permanecerão como sempre foram, porque os donos do poder americano e, portanto, global, são os grandes conglomerados capitalista.
Carlos Henrique de Pontes Vieira
Deus queira que eu esteja enganado, mas não há indícios de que eu possa estar. Pelas seguintes razões: i) as declarações dos três candidatos à presidência da nação que lidera e defende o "status quo" da geopolítica do mundo atual, com todas as armas que lhe estão às mãos; ii) a história de interferências e as atuais; iii) o contumaz desrespeito ao princípio de autodeterminação dos povos; qualquer que seja o candidato vencedor, tudo me faz crer que as coisas permanecerão como sempre foram, porque os donos do poder americano e, portanto, global, são os grandes conglomerados capitalista.
Por que entra governo e sai governo, quer seja democrata, quer seja republicano, o embargo à economia cubana continua? E o campo de concentração em Guantánamo? Simplesmente porque são políticas de Estado e não de governo, assim como são as recentes: (i) reativação da Quarta Frota Armada para patrulhar a América Latina; (ii) entrega do território colombiano pelo seu atual presidente para as forças armadas norte-americanas e sua postura agressiva com seus vizinhos; (iii) movimentos separatistas na Bolívia, Equador e Venezuela apoiados pela América do Norte com o intuito de desestabilizar os processos de avanço social na América do Sul; (iv) incremento de bases militares também no sul do continente.
Todas essas políticas visam uma forma de promover um conflito entre as nações latino-americanas para neutralizar os esforços, liderados pelo governo venezuelano, de integração da região e a genuína independência do sul do continente em relação ao norte hegemônico.
Bem fez o atual ministro da defesa do Brasil ao responder à representante do governo norte-americano quando foi indagado sobre o que os Estados Unidos poderiam fazer em relação à recente criação da UNASUL, União das Nações da América do Sul, como um fórum de defesa da região: “Mantenham-se à distância.”
Portanto, em relação à mudança de posturas do governo norte-americano, é melhor botarmos as barbas de molho e, como a pichação no muro de Quito, penso que o que vem aí é mais do mesmo despotismo.
quinta-feira, maio 29, 2008
Sobre proibições políticas e econômicas

“Nada estabelece limites tão rígidos à liberdade de uma pessoa quanto a falta de dinheiro.” (John Kenneth Galbraith)
Carlos Henrique de Pontes Vieira
Carlos Henrique de Pontes Vieira
Acompanho a revolução cubana desde os seus primórdios. Não apenas a acompanho, mas admiro o fabuloso empreendimento de uma nação tão pequena, pobre e espoliada resgatar a sua dignidade e ser senhora de sua própria história, enfrentando face a face a hostilidade belicosa do mais poderoso império jamais visto pela humanidade.
No início era mais difícil o acesso ao confronto de notícias, pois uma só era a fonte distorcida pela ideologia que nos domina. Hoje, com a internet, podemos acessar os vários sites alternativos e ler, por exemplo, o pensamento vivo de Fidel Castro com seu surpreendente vigor intelectual, já que é um homem com mais de oitenta anos e de saúde frágil.
Nesse confronto, podemos ver com clareza a notícia truncada. Uma delas se refere à proibição de acesso dos cubanos aos hotéis estrangeiros. A notícia era essa e ponto. As razões para essa medida proibitiva os nossos jornais omitiam.
Em um de seus artigos nas “Reflexões do Companheiro Fidel”, fico sabendo que a medida política foi tomada para solucionar o problema da prostituição infantil, advinda do turismo sexual, tão bem conhecido entre nós. Aliás, medida bem sucedida, diga-se de passagem, portanto, já justificada.
Entretanto, em acaloradas discussões, meus antagônicos, sem sopesar os bens da vida para a formação de uma sociedade minimamente saudável – aqui vale lembrar que um dos bens a sopesar é a preservação da plenitude da infância, o outro é a liberdade de ir e vir em uma determinada faixa territorial – pois bem, meus opositores argumentavam do absurdo autoritário, medida política limitadora das liberdades humanas.
Fico com Fidel Castro e com John Kenneth Galbraith, citado acima em epígrafe lapidar. Tem sido o nosso caso, nação das dez piores do planeta em distribuição de renda que se arvora de sua democracia burguesa e se esquece dos rígidos limites impostos pela falta de dinheiro a uma parcela majoritária de sua população.
sexta-feira, dezembro 23, 2005
Tempo de progredir !

"... nossa tarefa máxima deveria ser o combate a todas as formas de pensamento reacionário." (Antônio Cândido)
Carlos Henrique de Pontes Vieira
No Brasil, os capitalistas "donos do poder" não promoveram o sistema que, em tese, deveria lhes interessar, ou porque não souberam ou não puderam ou não quiseram -foi preciso um presidente operário para fazê-lo - e, qualquer que seja o motivo, foi bom que tenham saído por comprovada incompetência ou impotência ou perversidade.
Carlos Henrique de Pontes Vieira
No Brasil, os capitalistas "donos do poder" não promoveram o sistema que, em tese, deveria lhes interessar, ou porque não souberam ou não puderam ou não quiseram -foi preciso um presidente operário para fazê-lo - e, qualquer que seja o motivo, foi bom que tenham saído por comprovada incompetência ou impotência ou perversidade.
Suspeito que tenha sido porque não quiseram, portanto, por perversidade. A economia real, a que produz, emprega e pode nos fazer fortes e independentes como nação, não lhes interessava e estavam voltados para outra esfera de interesses, qual seja, a economia virtual, a financeira, do dólar, do euro, dos capitais voláteis que nada produzem e nos oprimem a todos com a sua concentração de renda que promove a fratura, a violência, a ansiedade, a angustia e o medo entre nós.
O inciso IV do art. 1º da nossa Constituição determina que a República Federativa do Brasil tem como fundamento os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, donde concluímos da inconstitucionalidade de uma economia que não tenha por base esses dois parâmetros.
"Por la razon o por la fuerza" é o aforismo inscrito no pórtico do Palácio do governo chileno e que poderia servir para propor a saída dos usurpadores e obscuros "donos do poder", na expressão de Raymundo Faoro, eminências pardas que decidem através de uma complexa e poderosa rede de intricados interesses contrários aos de quem tem o poder formal e, pior ainda, ao do autêntico dono do poder que, constitucionalmente, é o povo, cujas necessidades dependem da economia real e, em seu seio, há mentes preparadas para conduzi-la com competência e seriedade a um patamar muito mais elevado de qualidade de vida para todos.
Países menores do que o nosso, com muito menos recursos naturais e mais problemas políticos, geográficos e climáticos resolveram com eficiência algumas questões que são endêmicas entre nós. Um dos resultados mais notórios da gestão do atual rei do diminuto Butan, na cordilheira do Himalaia, a 4.500 metros de altura entre a China e a Índia, foi o aumento de 19 anos na expectativa de vida entre 1984 e 1998, segundo afirma Andrew Revkin, repórter do New York Times.
O cenário da economia mundial até meados de 2008 foi favorável para o crescimento econômico do mundo. Que os próximos anos, superada a crise que abala todo o mundo capitalista, sejam um tempo de progresso e combate a todas as formas de pensamento reacionário, dentre eles o econômico.
quarta-feira, dezembro 21, 2005
Um projeto de Nação

Uma nação é uma alma, um princípio espitirual (Ernest Renan)
Carlos Henrique de Pontes Vieira
O historiador e filólogo francês, autor da epígrafe acima, lapidarmente, arremata: "Duas coisas constituem uma nação: uma é a posse de um rico legado de lembranças; a outra é o consentimento atual, o desejo de viver juntos, a vontade de seguir apreciando a herança que se recebeu como uma posse comum"
O princípio espiritual, o desejo de viver juntos de que fala Renan, pode estar comprometido entre nós. Não é difícil constatarmos isso, não precisamos nem mesmo abrir os jornais para sentirmos a profunda fratura causada pela enorme concentração de renda que existe em nossa sociedade que, de acordo com a opinião de uma vasta maioria de estudiosos dos problemas sociais, é uma das causas mais preponderantes da escalada de violência de uns e do medo de outros.
Qual a razão desta concentração de renda se nem o próprio capitalismo é beneficiário dela ? Os três pilares desse sistema econômico são o investimento, a poupança e o consumo. Ora, a propensão a investir, a poupar e a consumir aumentam quando há uma distribuição mais eqüitativa dos rendimentos, e o aumento desses agregados econômicos é o alavancador de uma economia de mercado.
Pode-se objetar que um exército de reserva de mão-de-obra barata interessa ao sistema. Porém, interessa mais do que a formação de um mercado fabuloso, como seria o brasileiro, se a riqueza fosse melhor distribuída ? É difícil de acreditar, já que as nações desenvolvidas não concentram renda como nós. E mais, o custo do esgarçamento do tecido social é tão alto que é fácil concluir que há uma grande irracionalidade de nossas elites capitalistas ao optar pelo exército de reserva de mão-de-obra barata ao invés de uma distribuição razoável do que produzimos.
Folheando uma edição em espanhol da obra completa de Sigmund Freud, em "El porvenir de una ilusión", já em 1927, o grande psicanalista advertia que "Cuando una civilización no há logrado evitar que la satisfacción de un cierto número de sus partícipes tenga como premisa la opressión de otros, de la mayoria quizá – y así sucede en todas las civilizaciones actuales – es comprensible que los oprimidos desarrolen una intensa hostilidad contra la civilización que ellos mismos sostinen com su trabajo, pero de cuyos bienes no participan sino muy poco. En este caso no se puede esperar por parte de los oprimidos una assimilación de las prohibicions culturales, pues por el contrario, se negarán a reconocerlas, tenderán a destruir la civilización misma y eventualmente a suprimir sus premisas. La hostilidad de estas clases sociales contra la civilización es tan patente que há monopolizado la atención de los observadores impidiéndoles ver la que latentemente abrigan también las otras capas sociales mas favorecidas. No hace falta decir que una cultura que deja insatisfecho a un núcleo tan considerable de sus partícipes y los incita a rebelión no pude durar mucho tiempo, ni tampoco lo merece."
Resta-nos, pois, inspirados pela lucidez do mestre de Viena, a urgência de nos repensarmos em um novo projeto de nação que passe, obrigatoriamente, por uma redistribuição de rendas.
terça-feira, dezembro 13, 2005
A carapuça

Emir Sader
O que a oposição brasileira têm em comum com a venezuelana?
Em primeiro lugar, o peso que os grandes monopólios privados da mídia tem dentro da oposição. Lá como cá, quem dá as pautas de ação da oposição, quem se encarrega de massificá-las, de reiterá-las centenas e milhares de vezes, é a mídia, que funciona como uma espécie de partido da direita.
Para nós não é novidade. Toda a campanha prévia ao golpe militar de 1964 foi protagonizada pelos jornais privados – que, vale sempre a pena recordar, concitavam ativamente o golpe, à exceção da Última Hora -, com os partidos atuando como agentes da ação jornalística. Tem sido assim, cada vez mais, especialmente nas campanhas eleitorais, mas nos grandes acontecimentos – campanha pelas eleições diretas, pelo impeachment de Collor, denúncias atuais contra o PT -, esse papel é preponderante, até mesmo em definir a importância, determinando as pautas em debate no país e os enfoques que são dados a elas.
No golpe dado contra o governo de Hugo Chavez, em abril de 2002, essa função da grande imprensa privada venezuelana foi escandaloso. O expressivo documentário “A revolução não será televisionada”, feito por um canal escandinavo, relata esse papel, foi um grande sucesso nos canais alternativos, mas significativamente a grande mídia – escrita e televisiva – calou-se sobre o documentário. Porque este se constituiu em uma denúncia viva sobre o papel político dessa mídia.
Apenas para recordar, além de ter incitado o golpe sistematicamente na sua programação, ter convocado manifestações contra o governo – bem ao estilo do golpe de 1964 no Brasil -, ter apoiado o efêmero presidente da Federação das Industrias que assumiu o governo – fechando o Parlamento e o Judiciário, anunciando a privatização da empresa de petróleo, afoitamente - no momento em que a participação popular recolocou Hugo Chavez no poder, todos os canais privados de televisão deixaram de dar qualquer noticia, passando a exibir desenhos animados.
Em outras circunstâncias, essa mídia monopolista privada convocou uma lockout empresarial, que incluiu a empresa estatal do petróleo e durou vários meses. A programação televisiva exibe personagens da direita incitando ao assassinato do presidente da República e a outras formas de ações terroristas contra instalações estatais.
Em comum com a mídia privada brasileira está o caráter monopolista das duas, centradas em algumas poucas famílias e nos seus vínculos estreitos com as associações empresariais. Além disso, outro parentesco está na presença de grandes magnatas privados da mídia, vinculados a essas famílias, que ao mesmo tempo estão na lista das maiores fortunas do país e até mesmo do continente.
Se fosse necessário encontrar outro vínculo entre as duas oposições midiáticas, estão os reiterados rumores de que Gustavo Cisneros, o maior magnata da imprensa privada venezuelana e um dos maiores milionários do continente, teria comprado ações da endividadíssima Editora Abril brasileira. Não seria necessário este vínculo econômico direto para explicar os estilos de uma revista como a Veja e as similares da Venezuela, mas esse vínculo consolidaria os laços dessa cadeia de mídia bushiana no continente.
Além disso, a oposição de lá e de cá, buscam a ingovernabilidade, tratando de criar situações de desestabilização dos governos. Sua ação faz parte do projeto político do governo Bush, de enfraquecer a aliança regional que integra o a Argentina, o Uruguai, a Venezuela, Cuba, entre outros e que tem no Brasil seu eixo.
É uma oposição conservadora, que ressucita métodos da “guerra fria”, seja com a diabolização dos adversários, seja com a repetição sistemática dos mesmos chavões, com denuncias reiteradas, com algum fundamento ou não. A matéria sobre a nunca comprovada ajuda financeira de Cuba ao governo Lula é um tem constante e similar, aqui, na Venezuela, no México, na Bolívia e na Colômbia.
A oposição venezuelana apelou diretamente para o golpe e, derrotada, tenta agora conclamar a uma ação militar externa, com a tentativa de deslegitimar o sistema político. A oposição brasileira têm brandido o impeachment, a grande mídia privada tratou de criar as condições para isso, sem consegui-lo, mas um dos partidos opositores – o PFL, laranja do PSDB – diz que vai apresentar a proposta que, mesmo sem chance de vingar, trataria de manter a idéia da falta de legitimidade de Lula, durante toda a campanha eleitoral.
A própria reação “indignada” da grande mídia privada monopolista, dos partidos opositores e das associações empresarias brasileiras às declarações de Lula servem como confirmação da certeza da comparação. Senão não teriam vestido a carapuça.
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