quarta-feira, março 09, 2016

Frase

A prática da arbitrariedade não a legitima. (Cristiano Zanin Martins)

Frase

A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos: quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une. (Milton Campos)


segunda-feira, março 07, 2016

Teoria do solidarismo



Se todos os homens são interdependentes, aqueles que gozam de uma vantagem devem uma compensação aos demais. A sociedade representa um conjunto em que todas as partes estão estritamente unidas umas às outras, como as partes do corpo humano. Os exitosos são os que têm sabido aproveitar-se da ação dos outros, portanto são seus devedores. (Léon Bourgeois)

terça-feira, março 01, 2016

Um novo direito

Carlos HP Vieira

Falam mal da esquerda associando-a ao governo, mas não se dão conta de que o governo é de direita. As razões:

1. adoção do programa de ajuste fiscal do adversário derrotado
2. ataque indiscriminado aos direitos sociais, trabalhistas e previdenciários
3. governa para bancos e rentistas com juros altos
4. R$ 500 bilhões do orçamento estão destinados a pagar juros da dívida pública
5. não moveu um músculo em defesa da Petrobras

A velha direita o ataca pelo estelionato eleitoral que a revelou e todo seu modo de agir.

A esquerda autêntica precisa abrir os olhos e saber que a luta contra a direita e a favor da justiça social não pode ser através do atual ordenamento jurídico porque ele é fruto da injusta ordem neoliberal para mantê-la. A direita já sabe - e age assim - que auctoritas, non veritas, facit legem [é a autoridade, não a verdade, que faz a lei]. Urge que a verdadeira e genuína esquerda também saiba e aja assim para impor, com um novo direito, a justiça social e os seus generosos valores.

Nesta ordem jurídica neoliberal, summum jus, summa injuria [excesso de direito, excesso de injustiça].

segunda-feira, fevereiro 29, 2016

De Mastins e de Poodles

Mauro Santayana

No day after da aprovação pelo Senado de proposta que  muda as regras do pré-sal, abrindo caminho para leilões de novos campos de petróleo e para a aprovação pela Câmara de projeto ainda mais vergonhoso, que prevê o fim do regime de partilha e a volta ao regime de concessão que vigia até 2010, estabelecido nos “fantásticos” tempos de FHC, autoridades norte-americanas movem mundos e fundos para impedir a compra, pela poderosa estatal chinesa ChemChina, da multinacional química Syngenta, por 44 bilhões de dólares.

Embora de origem suíça, a Syngenta tem forte presença no mercado agrícola norte-americano, onde está cotada em bolsa e conta com acionistas  como o Bank of America e o fundo de investimentos Blackrock.

Com essa atitude, os EUA querem também evitar que Pequim reforce sua posição na área de transgênicos prejudicando direta e indiretamente grandes empresas norte-americanas do setor, como a Monsanto - ao contrário do que ocorre no Brasil, os chineses tratam as multinacionais de sementes e defensivos agrícolas estrangeiras com rigor e são extremamente cuidadosos na liberação da venda de seus venenos e organismos geneticamente modificados em seu território, um dos maiores mercados do mundo. 

A pseudo “massa” ignara, abjeta, fútil e fascista, que pulula pela internet e pela mídia conservadora brasileira, deveria aproveitar o seu pegajoso pró-norte-americanismo para aprender a diferença entre os EUA – e outros países com P maiúsculo na administração de seus interesses - e o Brasil: por lá, quando se trata da entrega de setores ou mercados estratégicos para potências concorrentes, os mastins nacionalistas dos Estados Unidos ladram e rugem - mesmo quando não se trata de empresas 100% norte-americanas – e arreganham os caninos, enquanto, por aqui, nossos delicados poodles entreguistas antinacionais fazem festa para os gringos, e balançam, arfantes e em êxtase, os rabinhos.

terça-feira, fevereiro 23, 2016

Havana

O mundo chega em Havana em hordas cada vez maiores. Nas ruas de paralelepípedos de Habana Vieja, a cidade antiga lindamente restaurada, agora pode ser difícil mover-se entre as multidões dos grupos turísticos. Eles seguem seus guias com bandeirinhas entre as praças rodeadas de cafés, saem do Museo del Chocolate, passam por estátuas vivas e franquias de Victorinox e Diesel e chegam a butiques que ocupam majestosas mansões antigas, onde relógios feitos à mão são vendidos por 12 mil dólares.
Não muito tempo atrás, tudo isso estava a ponto de desmoronar. A improvável transformação é obra do escritório do Historiador da Cidade, um vasto departamento estatal de arquitetos e urbanistas chefiado por Eusebio Leal Spengler desde 1981. Com um poder sem precedentes para um historiador da arquitetura, equivalente ao de um prefeito, ele ganhou aplausos da Unesco e de órgãos de preservação de todo o mundo pelo que conquistou aqui nos últimos 30 anos, contra todas as expectativas.

No início dos anos 1990, Leal convenceu Fidel Castro a montar uma empresa estatal de turismo, a Habaguanex, companhia encarregada de desenvolver hotéis, restaurantes e lojas. Crucialmente, ela usaria os lucros para restaurar os edifícios e as ruas abandonados de Havana, além de promover projetos sociais e instalações para a comunidade. Foi um modelo cauteloso de tática capitalista usada para fins socialistas, que viu o departamento de Leal canalizar mais de meio bilhão de dólares para a cidade antiga. Hoje, a companhia dirige um império crescente de 20 hotéis, 40 restaurantes e 50 bares e cafés, assim como dezenas de butiques de luxo.

segunda-feira, fevereiro 08, 2016

Mensagem do primo Antonio Eugênio


Primos,

No intermédio das mensagens do dia, fiz um provocação,no bom sentido, para esquentar o debate político. Acho, que no fundo todos nós gostamos uma vez que mantemos o respeito e não agressão às opiniões dos que participam e acompanham. Estendo-me um pouco mais ( aceitando a provocação do Renato) sobre a questão dos países no intrigado sistema político- ideológico mundial. Lembro o seguinte: o maior país democrático do mundo, os EU, adota o sistema capitalista da livre iniciativa e liberdade de expressão. O maior bloco socialista do mundo, a URSS, tornou-se um governo tirano com Stalin, causando assassinatos e prisões a quem divergia de seu sistema político-ideológico. Somente após1987, com a reforma ( Perestroika) e independências dos países da Europa oriental, puderam usufruir da liberdade. Após o término da 2a Guerra Mundial, os países livres passaram a temer a URSS. Os EU que saiam da guerra numa situação economicamente soberba, sem nunca seu território ter sido bombardeado, infelizmente foi tomado à época por um movimento militarista que tinha grande trânsito e influência política no Congresso americano, instalando dezenas de bases militares em torno do mundo. Esse fato criou e desenvolveu o grande interesse das indústrias armamentistas, persistindo até hoje, por conflitos fora do país, em nome da defesa de um mundo livre. Na economia, após o final da guerra em 1945, de bom aconteceu o desenvolvimento econômico dos países europeus e do Japão, e o surgimento dos Tigres Asiáticos ( esses com mão de obra barata e uma rígida disciplina e hierarquia religiosa adquirida através do budismo), causando o equilíbrio das forças econômicas mundial. A economia capitalista provocou no mundo inteiro o progresso de suas civilizações, principalmente em termos materiais e científico. A URSS até recentemente só tinha produzido o Sputinik. Tanto a URSS e, mais recentemente a China, aplicaram em sua economia socialista, dois instrumentos da econômicos capitalistas: a propriedade privada e a utilização de bolsas de valores em suas negociações. Somente a partir daí, houve progresso de suas economias. O sistema capitalista, além das forças econômicas de interesse armamentistas citadas, cometeu outros erros como o do capital financeiro que se encontra hoje em constante processo de regulamentação em busca do seu aperfeiçoamento. Às nações emergentes e em desenvolvimento, sem a pungência de suas economias,deveria adotar um sistema de economia mista liberal e política de estado, encontrando o tamanho do Estado ideal a ser utilizado, em função de suas naturezas, necessidades e características culturais do povo de cada nação, determinandoas proporções devidas entre os princípios do Estado de Direito e do Estado Social ( capitalismo x socialismo, ponderação do Noberto Baggio, do Caíque). Infelizmente, no Brasil atual, o Estado é incompetente para garantir os dois princípios tão importantes para uma democracia, Parece que estamos de acordo quando comungamos a não aceitação dos sistemas extremos dos regimes capitalismo ditatorial e socialismo ditatorial. Quem sabe um socialcapitalismo que alguns não acreditam. Ufa!

Abraço,

Antonio Eugênio.




Mensagem ao primo Antonio Eugênio




Antonio Eugênio,

Como não existe neutralidade em nenhuma produção de conhecimento, o seu texto não fugiu à regra e nem será o meu que fugirá. O que quero é fazer aqui um contraponto e propor sempre serenidade para saber olhar os dois lados, bom e ruim, das nações.

A URSS ficou satanizada pela propaganda pesada da guerra fria, sobretudo pelo período stalinista que durou 31 anos, de 1922, quando Lênin sofreu um derrame que o matou em 1924, até 1953 quando Stálin morreu. Só que o país socialista durou 74 anos, de 1917, quando foi invadido por 14 países hostis à revolução, até 1991. Então, se você fizer a diferença, 74-31= 43 anos, um período maior do que o período stalinista onde várias coisas boas aconteceram e bem que poderíamos ser mais gratos por elas:

1. a sua importante e dramática participação na 2a. guerra e na vitória sobre Hitler.
2. os direitos da mulher
3. a legislação trabalhista
4. o anticolonialialismo
5. a alfabetização universal e gratuita
6. a elevação de vida da classe trabalhadora
7. o desenvolvimento artístico de grande qualidade.

A perestroika e a glasnost de Gorbachov que tentava mostrar ser possível conciliar igualdade e liberdade individual foi solapada pelo ocidente dando força e apoio ao seu protegido, Boris Yeltsin, que deu no que deu: desmantelaram a URSS, grupos mafiosos tomaram o poder e a esculhambação reinou. A Rússia hoje retoma aos poucos a sua grandeza.

Os EUA entraram tardiamente na guerra, em 1941, mas só em 1943 foi que Roosevelt enviou um contingente mais expressivo de soldados norte-americanos para o Egito, onde venceram as tropas alemãs na Batalha de El Alamein. Outra importante participação dos EUA foi o desembarque na Normandia (França), que juntamente com os aliados venceram o exército alemão e a cidade de Paris voltou para o controle da França, antes dominada pelos alemães. Perderam 300 mil vidas, todos eram soldados, não havia civis. Foi o país que mais lucrou com a guerra.

Jamais devemos esquecer: URSS e EUA foram parceiros nesta guerra. A URSS por ter perdido 25 milhões de vidas de civis e soldados e mais a besteira de ter entrado em competição com o capitalismo, desperdiçando seu capital no orçamento militar, se enfraqueceu economicamente e acabou se desmantelando.

A nação mais rica do mundo, com muitas coisas para se elogiar, se divulga como a mais democrática do mundo, mas é onde acontecem os seguintes fatos, cito só esses para não ficar extensa e cansativa a lista:

1. 22% das crianças americanas vive abaixo do limiar da pobreza.
2. entre 1890 e 2012, os EUA invadiram ou bombardearam 149 países.
3. os EUA são o único país da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) que não oferece qualquer tipo de subsídio de maternidade.
4. 125 norte-americanos morrem todos os dias por não poderem pagar qualquer tipo de plano de saúde.
5. os EUA foram fundados sobre o genocídio de 10 milhões de nativos. Só entre 1940 e 1980, 40% de todas as mulheres em reservas índias foram esterilizadas contra sua vontade pelo governo norte-americano.
 6. O preço médio de uma licenciatura numa universidade pública é 80 mil dólares.

György Lukács, um marxista húngaro, escreveu, em francês, sobre o socialismo: "charbons ardents d'un grand feu éteint" (carvões ardentes de um grande fogo apagado) porque ninguém vive sem uma utopia. O capitalismo é um sistema que se mostrou apto a gerar riqueza e - inapto a distribuí-la - pobreza. O nosso querido e insuspeito primo, o Itamaraty, o Pedra Rosa, o Pedrosa ficou pasmo ao saber que o 1% mais rico do mundo possui o equivalente ao que possui o restante 99%. Conciliar a igualdade com a liberdade individual, o sonho de Gorbachev na sua glasnost e perestroika, e o nosso também, não é fácil, sobretudo num país como o Brasil. Henri Dominique Lacordaire nos alerta: "Entre fortes e fracos, entre ricos e pobres, entre senhor e servo é a liberdade que oprime e a lei que liberta". É uma lição que fundamenta o nosso repúdio ao neoliberalismo econômico. Nossa Constituição dita o capitalismo como o modo de produção do país, pelo menos que a sua segunda vertente, a social democracia, seja a que prevaleça em nossas escolhas por ser a mais moderna e razoável.

Abraço,

Caíque.

quarta-feira, janeiro 27, 2016

A despedida de Brasilia - 25/01/2016

Já nos despedindo da memorável temporada em Brasilia, almoçamos com João, Leliana e família no excelente restaurante do clube de golfe cuja honestidade merece ser destacada. Na conta veio discriminado o valor a ser pago por pessoa, dividiram o total por 12. Usamos esse valor individualmente, só que, na realidade, éramos 14. Não tivemos o cuidado de somar as parcelas que acabou superando em R$400,00 o valor total. Já estávamos lá fora quando o garçom veio nos avisar do erro. Agradecemos o que deveria ser corriqueiro, a honestidade.

De lá fomos para o acolhedor jardim da casa do João que levou o Freitas e a Inez para conhecer as instalações do bem estabelecido escritório LM Rolim Advogados Associados. Agradável tarde de convivência regada a cafezinho com bolo de macaxeira (Mané pelado), receita da mamãe. Conversamos  sobre política, assuntos do nosso grupo de primos e fui presenteado com o livro "La Habana - Transformacion urbana en Cuba". Quero registrar aqui a hospitalidade e o respeito que prevaleceu nas conversas quando o tema era política, normalmente tormentosas através do nosso grupo e facebook. Despeço-me com gratidão e anseio que a gente conserve essa harmonia e respeito por nossas preferências político-ideológica, condição necessária e suficiente para o enriquecimento da amizade que, no final das contas, é o que vale. 

Interpretação do sonho - 22/01/2016 - 28 anos da Beatriz

Beatriz e João Victor sendo primos e netos de primos, sempre foi uma preocupação para mim um filho deles. Conversávamos sobre isso numa noite em Jericoacoara e acabei sonhando que ela dava a luz a um peixe. Fiquei encasquetado com esse sonho. Hoje, conversando no café aqui na casa da Beatriz, o Freitas, psicanalista, marido da Inez, me dizia que os sonhos são restos do dia e sempre simbolizam desejos. A partir do fato de que associo o peixe a um dos símbolos do cristianismo, além de achar um dos alimentos mais saudáveis, ele interpretou esse sonho como meu desejo de que um filho deles seja abençoado com a graça da saúde. Simples assim.

A lição de Roosevelt ao Brasil de Dilma

A lição de Roosevelt ao Brasil de Dilma: Roosevelt queria que a produção e o emprego prosperassem, e sabia que isso não aconteceria sem atacar o rentismo que suga a jugular dos trabalhadores.

quinta-feira, janeiro 07, 2016

Diálogos e convergências



Diálogos e convergência 

De vez em quando, há um certo estranhamento dos outros em relação à minha posição política mais à esquerda, já que sou neto e filho de empresários. Essa posição já expliquei no texto "A boa fonte".

Meu avô morreu dois dias antes do meu aniversário de 13 anos, nessa idade não temos consciência política. Soube, mais tarde, que ele não gostava de Getúlio Vargas e se entristecia com um filho, meu tio, que gostava. Quanto a mim, não tinha a menor ideia quanto a política e a ideologia provocam paixões que podem destruir relacionamentos, eu simplesmente gostava do meu avô e não seria a ideologia que destruiria esse bem-querer.

A minha convivência com meu pai foi constituída por duas fases que correspondem a dois sentimentos: a primeira, a da infância, onde predominava o medo que eu tinha dele. Nessa fase eu poderia até dizer que eu gostava mais do meu avô do que dele. Meu avô era para mim uma figura masculina mais carinhosa; e a segunda, a da juventude, quando começamos a jogar futebol, a dialogar e a convergir. De início, conversávamos muito sobre música (ambos tocamos piano), depois sobre a segunda guerra mundial e, mais tarde, sobre política. Nessa fase começa minha grande afeição por ele, este é o sentimento que predomina. Todo meu gosto pelo jazz vem daí, assim como meu interesse por geopolítica se inicia pelas informações que ele me dava sobre a segunda guerra. Na política divergíamos, ele pendia para a direita e eu para a esquerda, mas há uma curiosidade que poucos sabem: em 1986 surge um jornal semanal alternativo, o JD (Jornal do Dorian), cujo diretor era o Dorian Sampaio e o editor, o Blanchard Girão, dois jornalistas de esquerda que eram amigos de meu pai. Nós dois assinamos o JD e sempre conversávamos sobre os assuntos da semana, principalmente sobre a coluna do Blanchard. Comecei a notar alterações no ponto de vista político dele, uma leve guinada à esquerda, e à nossa convergência. Em uma das semanas, li na coluna do Blanchard a carta de um anônimo que me pareceu familiar pelos pontos de vista que pareciam com os do meu pai e lá no final o autor se identifica como um ex locutor da PRE-9. Pronto, deve ser o papai, imaginei. À noite fui na casa dele que me confirmou. Mas não era o primeiro sinal de simpatia dele pela esquerda, em 1985 ele havia votado na Maria Luiza Fontenele para prefeita de Fortaleza.

Escaneei a carta que está publicada abaixo. Este JD circulou no dia 24 de julho de 1986. No ano seguinte, no dia 20 de abril de 1987, meu pai faleceu e, poucos meses depois, fui assistir a uma palestra do Blanchard Girão onde, no final, me apresentei a ele com o jornal em mãos. Ele me deu um caloroso abraço e me disse que desconfiava que a carta era de meu pai pela menção à PRE-9.

segunda-feira, dezembro 21, 2015

quinta-feira, dezembro 17, 2015

Michael Moore: o que roubar na próxima invasão?

O objetivo desta nova invasão dos EUA não seria para se apossar do petróleo, mas das idéias e soluções político-sociais encontradas por outros países Leia aqui

sexta-feira, dezembro 11, 2015

O Estado Oligárquico de Direito

O Estado Oligárquico de Direito

por Vladimir Safatle
Neste exato momento, a população brasileira vê, atônita, a preparação de um golpe de estado tosco, primário e farsesco. Alguém poderia contar a história da seguinte forma: em uma república da América Latina, o vice-presidente, uma figura acostumada às sombras dos bastidores, conspira abertamente para tomar o cargo da presidente a fim de montar um novo governo com próceres da oposição que há mais de uma década não conseguem ganhar uma eleição. Como tais luminares oposicionistas da administração pública se veem como dotados de um direito divino e eterno de governar as terras da nossa república, para eles, “ganhar eleições” é um expediente desnecessário e supérfluo.
O vice tem como seu maior aliado o presidente da Câmara: um chantagista barato acostumado, quando pego em suas mentiras e casos de corrupção, a contar histórias grotescas de fortunas feitas com vendas de carne para a África e contas na Suíça com dinheiro depositado sem que se saiba a origem. Ele comanda uma Câmara que funciona como sala de reunião de oligarcas eleitos em eleições eivadas de dinheiro de grandes empresas e tem ainda o beneplácito de setores importantes da imprensa que costumam contar a história do comunismo a espreita e do bolivarianismo rompante para distrair parte da população e alimentá-la com uma cota semanal de paranoia. O nome de sua empresa diz tudo a respeito do personagem: “Jesus.com”.
O golpe ganha um ritmo irreversível enquanto a presidenta afunda em suas manobras palacianas estéreis e nos incontáveis casos de corrupção de seu governo. Ela havia dado os anéis para conservar os dedos; depois deu os dedos para guardar os braços. Mais a frente, lá foram os braços para preservar o corpo, o corpo para guardar a alma e, por fim, descobriu-se que não havia mais alma alguma. Reduzida à condição de um holograma de si mesma e incapaz de mobilizar o povo que um dia acreditou em suas promessas, sua queda era, na verdade, uma segunda queda. Ela já tinha sido objeto de um golpe que tomou seu governo e a reduziu à peça decorativa. Agora, nem a decoração restou.
Bem, este romance histórico ruim e eternamente repetido parece ser a história do fim da Nova República brasileira. Que ela termine com um golpe de estado primário, fruto de um pedido de impeachment feito em cima da denúncia de “manobras fiscais” em um país no qual o orçamento é uma ficção assumida por todos, isto diz muito a respeito do que a Nova República realmente foi. Incapaz de criar uma democracia real por meio do aprofundamento da participação popular nos processos decisórios do Estado e equilibrando-se na gestão do atraso e do fisiologismo, ela acabou por ser engolida por aquilo que tentou gerir. Para justificar o impeachment, alguns são mais honestos e afirmam que um governo inepto deveria ser afastado. É verdade, só me pergunto por que então conservar Alckmin, Richa, Pezão e cia.
O fato é que, no lugar da Nova República, o Brasil depois do golpe assumirá, de vez, sua feição de Estado Oligárquico de Direito. Um estado governado por uma oligarquia que, como na República velha, transformou as eleições em uma pantomima vazia. Uma oligarquia que já mostrou seu projeto: uma política de austeridade que não temerá privatizar escolas (como já está sendo feita em Goiás), retirar o caráter público dos serviços de saúde, destruir o que resta dos direitos trabalhistas por meio da ampliação da terceirização e organizar a economia segundo os interesses não mais da elite cafeeira, mas da elite financeira.
Mas como a população brasileira descobriu o caminho das ruas (haja vista as ocupações dos estudantes paulistas), engana-se aqueles que acreditam poder impor ao país os princípios de uma “unidade de pacificação”. Contem com um aumento exponencial das revoltas contra as políticas de um governo que será, para boa parte da população, ilegítimo e ilegal. Mas como já estamos dotados de leis antiterroristas e novas peças de aparato repressivo, preparem-se para um Estado policial, feito em cima de leis aprovadas, vejam só vocês, por um “governo de esquerda”. Faz parte do comportamento oligarca este recurso constante à violência policial e ao arbítrio para impor sua vontade. Ele será a tônica na era que parece se iniciar agora. Contra ela, podemos nos preparar para a guerra ou agir de forma a parar de vez com este romance ruim.