quinta-feira, agosto 13, 2009

Deslealdade


H.S.Liberal


"Cachorro mordido por cobra tem medo até de linguiça". A frase de Marco Aurélio Garcia, assessor da Presidência para Assuntos Internacionais, embora pareça chula, dá a dimensão exata do que se pode esperar de sete bases militares ianques encravadas em nosso continente. A justificativa alegada pela Colômbia e pelos EUA, o combate ao narcotráfico, esbarra nas estreitas relações do governo da Colômbia com produtores e traficantes de drogas.

É bom lembrar que o Obama candidato, atendendo aos apelos de centrais sindicais dos EUA, barrou a entrada da Colômbia na Alca. Motivo: os assassinatos sistemáticos de lideranças sindicais e populares pelo governo de Álvaro Uribe. E mais: a aliança do governo colombiano com forças paramilitares e narcotraficantes cuja representação parlamentar de mais de 60 congressistas foi processada e/ou trancafiada pela Suprema Corte colombiana.

O cenário que desponta nesses acordos militares reproduz a estrutura consagrada no outro lado do mundo, onde o Império se associa militar e politicamente a Israel, um estado belicoso por excelência, para fazer frente ao “terrorismo” palestino. Aqui, o Império é o mesmo, e o sócio, por sua natureza nazi-fascista, não é diferente. Se não há as famosas armas de destruição em massa, servem os lança-foguetes suecos em mãos das Farc.

É, portanto, feliz e responsável a posição brasileira de não aceitar a versão dos Estados Unidos, por seu assessor de Segurança Nacional, general Jim Jones, sobre as bases militares que o país quer usar na Colômbia. Trata-se, é bom estarmos alerta, do país de perfil histórico mais agressivo e arbitrário que se conhece e de maior insubmissão às decisões de organizações multilaterais como a Organização das Nações Unidas. Pergunte-se ao Iraque.

Onde os Estados Unidos põem as botas, vidas, culturas, tradições são destroçadas em nome do ultrapassado “american way of life”, ou da falsa superioridade da cultura ocidental cristã. Por isso, o povo colombiano e da nossa América não pode deixar de temer que as bases de Malambo, Palanquero, Apiay, Tolemaida, Larandia, Cartagena e Bahía Málaga sejam transformadas em uma grande Guantánamo espalhada pelas terras da Colômbia.

O consenso condenatório dos governos sul-americanos a essa suspeita parceria tem base em dossiê divulgado em abril, em seminário militar. No documento, a Força Aérea dos EUA defende o uso de uma base no centro da Colômbia como plataforma de longo alcance. O fato preocupa por contradizer a versão “franciscana” dos dois paises envolvidos de que não há objetivos estratégicos para aumentar a presença intimidativa no continente.

Razão tem o ex-presidente cubano Fidel Castro ao qualificar de “deslealdade” o acordo de Uribe. Para Fidel, é “um insulto à inteligência” do povo latino-americano os argumentos esgrimidos por Colômbia e EUA, pois “o verdadeiro objetivo é o controle dos recursos econômicos, o domínio dos mercados e a luta contra as mudanças sociais”. Senão, para que tanto navio da IV Frota e tanto avião moderno de combate, como pergunta o velho líder.

Estas informações/opiniões não apareceram – ou não mereceram o devido destaque – nos “jornalões”, revistas semanais e blogs mais difundidos. O objetivo é fornecer, ou destacar, contrapontos à tendência ideológica da grande mídia. Assim, estimular o debate democrático do que acontece no mundo e no Brasil.

quarta-feira, agosto 12, 2009

Ode ao Rio de Janeiro

Pablo Neruda, 1956
O poema de Pablo Neruda , "Ode ao Rio de Janeiro", num momento de ternura, começa como um cântico de amor e deslumbramento pela cidade, aos poucos se transforma em lamento pelo contraste entre a beleza do lugar e a miséria do seu povo. Neruda, que escreveu o poema em 1956, depois de uma viagem ao Brasil, percebeu o quanto são poucos os que conseguem realizar as fantasias que ela desperta e promete à primeira vista.Por isso chamou-a de "porta delirante de uma casa vazia..." Neruda também percebeu e registrou a sensualidade difusa, uma tensão erótica, e chamou-a de "Antigo Pecado", "Salamandra Cruel", "Sodoma". E termina com um apelo poético para que um dia os filhos da "cidade maravilhosa", sejam elevados à mesma dignidade da sua beleza. (José Eduardo O. Bruno)

Rio de Janeiro, a água
é a tua bandeira,
agita as tuas cores,
sopra e retine no vento,
cidade,
negra náiade,
de claridade sem fim,
de abrasadora sombra,
de pedra com espuma
é o teu tecido,
o cadenciado balanço
da tua rede marinha,
o azul movimento
dos teus pés areentos,
o aceso ramo
dos teus olhos.
Rio, Rio de Janeiro,
os gigantes
salpicam a tua estátua
com pontos de pimenta,
deixaram
na tua boca
dorsos do mar, barbatanas
perturbadoramente mornas,
promontórios
da fertilidade, tetas da água,
declives de granito,
lábios de ouro,
e entre as pedras quebradas
o sol marinho
iluminando
rutilantes espumas.
Ó Beleza,
ó cidadela
de pele fosforescente,
romã
de carne azul, ó deusa
tatuada em sucessivas
ondas de ágata negra,
da tua nua estátua
um aroma de jasmim molhado
se desprende, vem no suor, um ácido
pegajoso
de cafezais e de frutarias
e pouco a pouco sob o teu diadema,
entre a dupla maravilha
dos teus seios,
entre cúpula e cúpula
da tua natureza
aparece o dente da desgraça,
a cancerosa cauda
da miséria humana,
nos montes leprosos
o cacho inclemente
das vidas,
pirilampo terrível,
esmeralda
extraída
do sangue,
o teu povo estende-se
até aos confins da selva
num rumor abafado,
passos e surdas vozes,
migrações de esfomeados,
escuros pés com sangue,
o teu povo,
para lá dos rios,
na densa
amazônia,
esquecido,
no Norte
de espinhos,
esquecido,
com sede nos planaltos,
esquecido,
nos portos mordido
pela febre,
esquecido,
à porta
da casa de onde o expulsaram,
pedindo-te
apenas um olhar,
esquecido.
Noutras terras,
reinos, nações,
ilhas,
a cidade capital,
a coroada,
foi colméia
de trabalhos humanos,
amostra do azar
e do acerto,
fígado da pobre monarquia,
cozinha da pálida república.
Tu és a espelhante
montra
de uma sombria noite,
a garganta
coberta
de águas marinhas
e ouro
de um corpo
abandonado,
és a porta
delirante
de uma casa vazia,
és
o antigo pecado,
a salamandra
cruel,
intacta
na fogueira
das longas dores do teu povo,
és
Sodoma,
Sim,
Sodoma
deslumbrante,
com um fundo sombrio
de veludo verde,
rodeada
de crespa sombra, de águas
ilimitadas, dormes
nos braços
da desconhecida
Primavera
dum planeta selvagem.
Rio, Rio de Janeiro,
quantas coisas tenho
para te dizer. Nomes
que nunca esquecerei,
amores
que amadurecem o seu perfume,
encontros contigo, quando
do teu povo
uma onda
agregue ao teu diadema
a ternura,
quando
à tua bandeira de águas
subam as estrelas
do homem,
não do mar,
não do céu,
quando
no esplendor
da tua auréola
eu veja
o negro, o branco, o filho
da tua terra e do teu sangue,
elevados
até à dignidade da tua formosura,
iguais na luz resplandecente,
proprietários
humildes e orgulhosos
do espaço e da alegria,
então, Rio de Janeiro,
quando
alguma vez
para todos os teus filhos,
e não somente para alguns,
abrires o teu sorriso, espuma
de morena náiade,
então
eu serei o teu poeta,
chegarei com a minha lira
para cantar em teu aroma
e na tua cintura de platina
dormirei,
na tua areia
incomparável,
na frescura azul do leque
que tu abrirás no meu sono
como as asas de uma
gigantesca
borboleta marinha.

Carta da ASC à UNASUL

ASC = Aliança Social Continental
Carta entregue pela ASC aos presidentes de UNASUL, acerca das bases militares dos Estados Unidos na Colômbia.

LUIZ INACIO LULA DA SILVA
Presidente da República do Brasil
RAFAEL CORREA
Presidente da República do Equador
HUGO RAFAEL CHAVEZ FRIAS
Presidente da República Bolivariana da Venezuela
MICHEL BACHELET
Presidenta da República de Chile
CRISTINA KIRCHNER
Presidenta da República de Argentina
EVO MORALES
Presidente da República de Bolívia
TABARE VASQUEZ
Presidente da República de Uruguai
FERNANDO LUGO
Presidente da República de Paraguai
ALAN GARCIA
Presidente da República de Peru
BHARRAT JAGDEO
República da Guiana
RONALD VENETIAAN
República de Suriname

Nos dirigimos aos senhores para manifestar-lhes nossas inquietações sobre os acontecimentos recentes que em nossa opinião afetam a estabilidade do continente e as perspectivas de integração materializadas em processos como o da UNASUL.

O governo de Álvaro Uribe Vélez, da Colômbia, anunciou recentemente a decisão de outorgar às tropas dos Estados Unidos a permissão de operação sobre 7 bases militares no território nacional, em um acordo que permitiria qualquer tipo de operações no interior e exterior do país. Isso significa, juntamente com o deslocamento da IV Frota, o incremento da presença militar dos Estados Unidos na região estratégica a partir da qual podem lançar operações sobretudo no continente. A Colômbia, ao assinar esse acordo, dará imunidade aos militares e contratistas estadunidenses, com o qual têm garantia de impunidade e os coloca fora do alcance e controle judiciais nacionais e internacionais. Ao mesmo tempo, o uso das bases significa uma intervenção nos assuntos internos da Colômbia e uma ameaça contra os processos democráticos em toda a região. Por exemplo, a presença da base militar Soto Cano em Honduras tem sido utilizada pelos golpistas desse país para demonstrar o apoio estadunidense ao golpe militar.

Essa utilização, que dá amplas facilidades ao exército estadunidense, se constitui em uma interferência aos processos de integração, um estímulo às correntes que querem desestabilizar os processos democráticos e uma fonte de conflitos em uma região que tem avançado na conquista de sua autonomia e na busca de caminhos próprios para seu desenvolvimento. As declarações no Brasil do assessor de segurança da Casa Branca de que "nossa missão é ajudar no treinamento de suas forças de fronteira" e sobre que o governo da Venezuela não fez muito para combater a presença das FARC em dito país, demonstram o propósito dos Estados Unidos de interpor-se nas diferenças e contradições entre os países da região.

A presença dessas bases tem sido justificada com o pretexto de luta contra o terrorismo e o narcotráfico; porém, na realidade, representam uma peça do dispositivo militar global dos Estados Unidos e patrocinam um enfoque militar e unilateral desses problemas, impedindo o tratamento social, político, autônomo e multilateral de tais problemas. Enfoques que, com o Plano Colômbia e com a Iniciativa Mérida, têm demonstrado sua ineficácia e seu alto potencial de desestabilização regional e cuja aplicação na Colômbia e nas zonas fronteiriças tem contribuído para agravar a crise humanitária, ambiental e social de vastas regiões.

Essas bases, juntamente com os Tratados de Livre Comércio, constituem-se em novos obstáculos para o avanço da integração sulamericana tão almejada pelos povos da região.

A postura do governo de Uribe sobre que a UNASUL não tem competência para analisar esse problema não é mais do que outra iniciativa desse governo para sabotar qualquer esforço de Integração Latinoamericana e facilitar a interferência dos EUA nos processos da região.

Pelo contrário, consideramos que a próxima reunião da UNASUL deve pronunciar-se a respeito, rechaçar a instalação dessas e de qualquer outra base militar na América do Sul, condenar a interferência nos assuntos da integração regional e avançar na busca de soluções políticas através do diálogo dos diferentes assuntos em controvérsia entre os países dentro do espírito de convivência pacífica, ajuda mútua e respeito à soberania, a qual se vulnera ao entregar o território colombiano às operações militares estadunidenses e não com a discussão fraternal no seio da UNASUL.

Solicitamos-lhes também que recebam uma delegação dos movimentos sociais do continente para expressar-lhes essas inquietações e permitir que o processo de constituição da UNASUL conte com a opinião dos mesmos.

Aliança Social Continental
Enrique Daza
Secretaria

segunda-feira, agosto 10, 2009

Fidel Castro: "El objetivo de las bases es el control de los recursos económicos"

El líder de la Revolución cubana, Fidel Castro, expresó que los argumentos utilizados para el establecimiento de siete bases aeronavales en Colombia es un insulto a la inteligencia y asegura que verdadero objetivo es el control de los recursos económicos, el dominio de los mercados y la lucha contra los cambios sociales.

En un nuevo artículo intitulado "Las bases yanquis y la soberanía latinoamericana", Fidel Castro afirma que el argumento de la lucha contra las drogas es un pretexto para establecer bases militares en todo el hemisferio y seguidamente se cuestiona: ¿Desde cuándo los buques de la IV Flota y los aviones modernos de combate sirven para combatir las drogas?

El líder revolucionario afirma además que "la historia no perdonará a los que cometen esa deslealtad contra sus pueblos, ni tampoco a los que utilizan como pretexto el ejercicio de la soberanía para cohonestar la presencia de tropas yankis".Añade que "si como consecuencia de tales acuerdos promovidos de forma ilegal e inconstitucional por Estados Unidos cualquier gobierno de ese país utilizara esas bases, como hicieron Reagan con la guerra sucia y Bush con la de Iraq, para provocar un conflicto armado entre dos pueblos hermanos, sería una gran tragedia".Difícilmente -puntualiza- el pueblo combativo, valiente y patriótico de Colombia se deje arrastrar a la guerra contra un pueblo hermano como el de Venezuela.

sexta-feira, agosto 07, 2009

Filme de Oliver Stone sobre Chàvez será exibido em Veneza

Um documentário do diretor americano Oliver Stone centrado na figura do presidente venezuelano, Hugo Chávez, “como campeão vigoroso nas mudanças da América Latina" será exibido em setembro no Festival Internacional de Cinema de Veneza. Foi o que informou nesta quinta-feira a imprensa italiana.
O documentário, South of the border, será apresentado fora de competição no festival italiano, que será realizado de 2 até 12 de setembro na cidade de Veneza. O trabalho cinematográfico de Stone, que visitou a Venezuela em várias ocasiões de maneira privada e também pública, a mais recente em janeiro, se centra em Chávez e em seu papel de "campeão vigoroso e cabal das mudanças na América Latina", indicou Agencia Bolivariana de Noticias (ABN).

O veículo afirmou que o diretor americano, que já recebeu três Oscar, "filmou na casa da família do presidente venezuelano, localizada em Sabaneta de Barinas", e "participou de diferentes reuniões de trabalho" junto ao líder da Revolução Bolivariana.

“Ao compartilhar estas experiências e de seu contato direto com o presidente, Stone concluiu que Chávez é um homem de energia embriagadora, grandes ideias e líder de mudanças mundiais que estão se estendendo por todas as partes, aspectos que destaca no documentário", afirmou a ABN.

quinta-feira, agosto 06, 2009

Chàvez: o novo Allende?


"La historia es nuestra y la hacen los pueblos" (Salvador Allende)
Carlos Henrique de Pontes Vieira

Como Salvador Allende Gossens, presidente do Chile (1970-73), o presidente da Venezuela, Hugo Chàvez Frias, é um homem que dialoga com o seu povo, pretende implantar o Estado Social, a democracia participativa e usa a maior riqueza do seu país, o petróleo (no Chile é o cobre), para financiar a justiça social.

Chàvez, para manter este diálogo permanente com o povo, usa a televisão e se apresenta diariamente num programa chamado “Alô, presidente!”. Quanto a nós, se quisermos ouvi-lo discursar é só assistir em nosso computador, pela internet, a Telesul (Telesur em espanhol) cujo endereço eletrônico é
http://www.telesurtv.net/noticias/canal/senalenvivo.php, onde podemos ter notícias de toda a América Latina a partir de uma perspectiva e profundidade bem diferentes das da grande mídia hegemônica.

Em um de seus discursos recentes disse que a revolução bolivariana é uma revolução pacífica. De fato, um dos elementos característicos da Constituição Bolivariana "converte a Venezuela em zona de paz".

Os grandes jornais escritos e televisados, formadores da opinião da nossa classe média, por enquanto hegemônicos, o tratam como um ditador, mas o que vemos é um presidente que não desgruda da Constituição de seu país, ele a leva no bolso e não se cansa de mostrá-la, advertindo que ela é o seu guia e que é fundamentado nela que tem ampliado o espaço da soberania popular, princípio basilar de todas as Constituições modernas.

Ademais, não temos notícias de que haja por lá presos políticos e, no que diz respeito à política de direitos humanos, a recente Constituição da Venezuela, de dezembro de 1999, determina em seu artigo 23 que “Os tratados, pactos e convenções relativos a direitos humanos, subscritos e ratificados pela Venezuela, têm hierarquia constitucional e prevalecem na ordem interna, na medida em que contenham normas sobre o gozo e exercício mais favoráveis às estabelecidas nesta Constituição e nas leis da República, e são de aplicação imediata e direta pelos tribunais e demais órgãos do Poder Público”.

Dois episódios que os grandes jornais têm mostrado sem nenhuma profundidade: o primeiro relacionado ao fim das concessões de emissoras de rádio. A maioria dos veículos não explicou direito que estas emissoras estavam irregulares perante a lei de radiodifusão. Algumas delas seguiam funcionando mesmo depois que os legítimos possuidores da concessão já haviam falecido. Segundo a lei venezuelana, isso não é possível.

A mídia não informa claramente que as freqüências, que funcionavam de forma ilegal e que foram retomadas pelo Estado, passarão por nova licitação para que voltem a apresentar o caráter público que deviam ter. Segundo o ministro de Obras Públicas y Vivienda, Diosdado Cabello, a anulação das concessões se deu não só naquelas em que o titular já havia falecido, mas também nas que estavam com a validade da concessão vencida e sequer compareceram ao órgão responsável por esta questão, a Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel), durante o período que havia sido indicado através de correspondência, demonstrando completo descaso com a lei. É o que nos informa Elaine Tavares em seu artigo “Venezuela recupera rádios para o serviço público” postado neste blog no seguinte endereço eletrônico http://incasbr.blogspot.com/2009/08/venezuela-recupera-radios-para-o.html .

O segundo episódio se refere às sete bases militares americanas instaladas no território vizinho, na Colômbia, como se fosse normal esse fato em tempos de paz. Quase todos os presidentes da região estão incomodados. Imaginem se fosse a Venezuela que estivesse cedendo o seu território para uma outra potência instalar bases militares, a polvorosa que seria desencadeada pela notícia nos grandes jornais.

É bom abrirmos os olhos e ficarmos atentos em relação às essas sete bases militares instaladas na Colômbia. Uma grande parcela do povo colombiano está reclamando vigorosamente. Reclamam também os povos de outras nações sulamerianas. Nós, brasileiros, se não estamos ainda, talvez seja por falta de informação, já que uma das bases está situada a apenas 50 kms de nossas fronteiras. O povo venezuelano, com mais razão, está inquieto, pois teme que a história chilena da década de 70 se repita com o desfecho do assassinato de seu presidente e a implantação de uma perversa ditadura de direita, agora no seu país.

Criação literária

A literatura não muda o mundo, mas sim as pessoas. E as pessoas mudam o mundo (Mário Benedetti)

Frei Betto

Como sublinha Bartolomeu Campos de Queiros, tudo que existe - esta publicação, o computador, a cadeira em que me sento, o cômodo no qual me encontro - foi fantasia na mente humana antes de se tornar realidade. Daí a força da literatura de ficção. Também ela foi fantasia na mente do autor e remete o leitor a uma realidade onírica que lhe possibilita encarar a vida com outros olhos. A fantasia impulsiona todos os nossos gestos, atitudes e opções.

A ficção funciona como um espelho que faz o leitor transcender a situação em que se encontra. O texto desvela o contexto e impregna o leitor de pretextos, de motivações que o enlevam, aquele entusiasmo de que falavam os gregos antigos, estar possuído de deuses, de energias anímicas que nos devolvem ao melhor de nós mesmos.

Toda ficção, narrativa ou poética, é des-cobrimento, revelação. Somos múltiplos e, ao ler, uma de nossas identidades emerge por força do encantamento suscitado pela quintessência da obra ficcional: a estética.

A literatura ficcional não tem que ser de esquerda ou de direita. Tem que ser bela. Fazer da ficção um palanque de causas é aprisioná-la numa camisa de força, transformando-a num espelho que não reflete o leitor, reflete o autor e seu proselitismo.

A ficção não tem de ser engajada, o escritor sim, tem o dever ético de se comprometer com a defesa dos direitos humanos neste mundo tão conflitivo e desigual.

No prólogo do evangelho de João, um dos textos mais poéticos da Bíblia, só comparável ao Cântico dos Cânticos, diz que "o Verbo se fez carne". Na arte literária a carne - a criatividade do autor - se faz verbo. Instaura a palavra, que organiza o caos.

No Gênesis, Javé cria o Universo pelo poder da palavra. Ele se faz palavra, manifestação que nos remete, como na obra ficcional, à transcendência (o autor sobrepassa a cotidianeidade ou lhe imprime novo caráter), à transparência (o texto reflete o que está contido nas entrelinhas), a profundência (a narrativa ou o poema nos convida a algo mais profundo do que percebemos na superfície da realidade).

Ler ficção é uma experiência extática - estar em si e fora de si. Somos alçados ao imaginário, induzidos à experiência da catarse, de modo a oxigenar a nossa psiquê. A estética nos imprime um novo modo de encarar as coisas. Como lembra Mário Benedetti, a literatura não muda o mundo, mas sim as pessoas. E as pessoas mudam o mundo.

A estética literária nos envia ao não dito, à esfera do desejo, suscitando-nos sonhos, projetos, utopias, do encontro com o príncipe encantado (Branca de Neve) ao reencontro amoroso com a opressiva figura do pai (A metamorfose, de Kafka, e Lavoura arcaica, de Raduan Nassar). Como assinala Aristóteles, a poética completa o que falta à natureza e à vida. A arte não se satisfaz com o estado factual do ser. Convida-nos à diferença, à dessemelhança, ao tornar-se.

Suscitar em crianças e jovens o hábito da leitura é livrá-los da vida rasa, superficial, fútil, e educá-los no diálogo frequente com personagens, relatos e símbolos (a poesia) que haverão de dilatar neles a virtude da alteridade, de uma relação mais humana consigo mesmo, com o próximo, com a natureza e, quiçá, com Deus.

quarta-feira, agosto 05, 2009

Siete puñales en el corazón de América

Fidel Castro Ruz
El líder de la Revolución cubana, Fidel Castro, se refirió este miércoles a la instalación de bases militares estadounidenses en territorio colombiano, y aseguró que no sólo son una amenaza para Venezuela, sino que "va dirigida a todos los países del Sur del continente. Ninguno podrá eludir el tema y así lo han declarado varios de ellos".

En su artículo intitulado "Siete puñales en el corazón de América", el compañero Fidel expresó: "No se arma Venezuela contra el pueblo hermano de Colombia, se arma contra el imperio, que intentó derrocarlo ya y hoy pretende instalar en las proximidades de la frontera venezolana sus armas sofisticadas".

Leo y releo datos y artículos elaborados por personalidades inteligentes, conocidas o poco conocidas, que escriben en diversos medios y toman la información de fuentes no cuestionadas por nadie.

Los pueblos que habitan el planeta, en todas partes, corren riesgos económicos, ambientales y bélicos, derivados de la política de Estados Unidos, pero en ninguna otra región de la tierra se ven amenazados por tan graves problemas como sus vecinos, los pueblos ubicados en este continente al Sur de ese país hegemónico.

La presencia de tan poderoso imperio, que en todos los continentes y océanos dispone de bases militares, portaaviones y submarinos nucleares, buques de guerra modernos y aviones de combate sofisticados, portadores de todo tipo de armas, cientos de miles de soldados, cuyo gobierno reclama para ellos impunidad absoluta, constituye el más importante dolor de cabeza de cualquier gobierno, sea de izquierda, centro o derecha, aliado o no de Estados Unidos.

El problema, para los que somos vecinos suyos, no es que allí se hable otro idioma y sea una nación diferente. Hay norteamericanos de todos los colores y todos los orígenes. Son personas iguales que nosotros y capaces de cualquier sentimiento en un sentido u otro. Lo dramático es el sistema que allí se ha desarrollado e impuesto a todos. Tal sistema no es nuevo en cuanto al uso de la fuerza y los métodos de dominio que han prevalecido a lo largo de la historia. Lo nuevo es la época que vivimos. Abordar el asunto desde puntos de vista tradicionales es un error y no ayuda a nadie. Leer y conocer lo que piensan los defensores del sistema ilustra mucho, porque significa estar conscientes de la naturaleza de un sistema que se apoya en la constante apelación al egoísmo y los instintos más primarios de las personas.

De no existir la convicción del valor de la conciencia, y su capacidad de prevalecer sobre los instintos, no se podría expresar siquiera la esperanza de cambio en cualquier período de la brevísima historia del hombre. Tampoco podrían comprenderse los terribles obstáculos que se levantan para los diferentes líderes políticos en las naciones latinoamericanas o iberoamericanas del hemisferio. En último término, los pueblos que vivían en esta área del planeta desde hace decenas de miles de años, hasta el famoso descubrimiento de América, no tenían nada de latinos, de ibéricos o de europeos; sus rasgos eran más parecidos a los asiáticos, de donde procedieron sus antepasados. Hoy los vemos en los rostros de los indios de México, Centroamérica, Venezuela, Colombia, Ecuador, Brasil, Perú, Bolivia, Paraguay y Chile, un país donde los araucanos escribieron páginas imborrables. En determinadas zonas de Canadá y en Alaska conservan sus raíces indígenas con toda la pureza posible. Pero en el territorio principal de Estados Unidos, gran parte de los antiguos pobladores fueron exterminados por los conquistadores blancos.

Como conoce todo el mundo, millones de africanos fueron arrancados de sus tierras para trabajar como esclavos en este hemisferio. En algunas naciones como Haití y gran parte de las islas del Caribe, sus descendientes constituyen la mayoría de la población. En otros países forman amplios sectores. En Estados Unidos los descendientes de africanos constituyen decenas de millones de ciudadanos que, como norma, son los más pobres y discriminados.

A lo largo de siglos esa nación reclamó derechos privilegiados sobre nuestro continente. En los años de Martí trató de imponer una moneda única basada en el oro, un metal cuyo valor ha sido el más constante a lo largo de la historia. El comercio internacional, por lo general, se basaba en él. Hoy ni siquiera eso. Desde los años de Nixon, el comercio mundial se instrumentó con el billete de papel impreso por Estados Unidos: el dólar, una divisa que hoy vale alrededor de 27 veces menos que en los inicios de la década del 70, una de las tantas formas de dominar y estafar al resto del mundo. Hoy, sin embargo, otras divisas están sustituyendo al dólar en el comercio internacional y en las reservas de monedas convertibles.

Si por un lado las divisas del imperio se devalúan, en cambio sus reservas de fuerzas militares crecen. La ciencia y la tecnología más moderna, monopolizada por la superpotencia, han sido derivadas en grado considerable hacia el desarrollo de las armas. Actualmente no se habla solo de miles de proyectiles nucleares, o del poder destructivo moderno de las armas convencionales; se habla de aviones sin pilotos, tripulados por autómatas. No se trata de simple fantasía. Ya están siendo usadas algunas naves aéreas de ese tipo en Afganistán y otros puntos. Informes recientes señalan que en un futuro relativamente próximo, en el 2020, mucho antes de que el casquete de la Antártida se derrita, el imperio, entre sus 2 500 aviones de guerra, proyecta disponer de 1 100 aviones de combate F-35 y F-22, en sus versiones de caza y bombarderos de la quinta generación. Para tener una idea de ese potencial, baste decir que los que disponen en la base de Soto Cano, en Honduras, para el entrenamiento de pilotos de ese país son F-5; los que suministraron a las fuerzas aéreas de Venezuela antes de Chávez, a Chile y otros países, eran pequeñas escuadrillas de F-16.

Más importante todavía, el imperio proyecta que en el transcurso de 30 años todos los aviones de combate de Estados Unidos, desde los cazas hasta los bombarderos pesados y los aviones cisterna, serán tripulados por robots.

Ese poderío militar no es una necesidad del mundo, es una necesidad del sistema económico que el imperio le impone al mundo.

Cualquiera puede comprender que si los autómatas pueden sustituir a los pilotos de combate, también pueden sustituir a los obreros en muchas fábricas. Los acuerdos de libre comercio que el imperio trata de imponer a los países de este hemisferio implican que sus trabajadores tendrán que competir con la tecnología avanzada y los robots de la industria yanki.

Los robots no hacen huelgas, son obedientes y disciplinados. Hemos visto por la televisión máquinas que recogen las manzanas y otras frutas. La pregunta cabe hacerla también a los trabajadores norteamericanos ¿Dónde estarán los puestos de trabajo? ¿Cuál es el futuro que el capitalismo sin fronteras, en su fase avanzada del desarrollo, asigna a los ciudadanos?

A la luz de esta y otras realidades, los gobernantes de los países de UNASUR, MERCOSUR, Grupo de Río y otros, no pueden dejar de analizar la justísima pregunta venezolana ¿Qué sentido tienen las bases militares y navales que Estados Unidos quiere establecer alrededor de Venezuela y en el corazón de Suramérica? Recuerdo que hace varios años, cuando entre Colombia y Venezuela, dos naciones hermanadas por la geografía y por la historia, las relaciones se volvieron peligrosamente tensas, Cuba promovió calladamente importantes pasos de paz entre ambos países. Nunca los cubanos estimularemos la guerra entre países hermanos. La experiencia histórica, el destino manifiesto proclamado y aplicado por Estados Unidos, y la endeblez de las acusaciones contra Venezuela de suministrar armas a las FARC, asociadas a las negociaciones con el propósito de conceder siete puntos de su territorio para uso aéreo y naval de las Fuerzas Armadas de Estados Unidos, obligan ineludiblemente a Venezuela a invertir en armas, recursos que podían emplearse en la economía, los programas sociales y la cooperación con otros países del área con menos desarrollo y recursos. No se arma Venezuela contra el pueblo hermano de Colombia, se arma contra el imperio, que intentó derrocarlo ya y hoy pretende instalar en las proximidades de la frontera venezolana sus armas sofisticadas.

Sería un error grave pensar que la amenaza es solo contra Venezuela; va dirigida a todos los países del Sur del continente. Ninguno podrá eludir el tema y así lo han declarado varios de ellos.

Las generaciones presentes y futuras juzgarán a sus líderes por la conducta que adopten en este momento. No se trata solo de Estados Unidos, sino de Estados Unidos y el sistema. ¿Qué ofrece? ¿Qué busca?

Ofrece el ALCA, es decir, la ruina anticipada de todos nuestros países, libre tránsito de bienes y de capital, pero no libre tránsito de personas. Experimentan ahora el temor de que la sociedad opulenta y consumista sea inundada de latinos pobres, indios, negros y mulatos o blancos sin empleo en sus propios países. Devuelven a todos los que cometen faltas o sobran. Los matan muchas veces antes de entrar, o los retornan como rebaños cuando no los necesitan; 12 millones de inmigrantes latinoamericanos o caribeños son ilegales en Estados Unidos. Una nueva economía ha surgido en nuestros países, especialmente los más pequeños y pobres: la de las remesas. Cuando hay crisis, ésta golpea sobre todo a los inmigrantes y a sus familiares. Padres e hijos son cruelmente separados a veces para siempre. Si el inmigrante está en edad militar, le otorgan la posibilidad de enrolarse para combatir a miles de kilómetros de distancia, "en nombre de la libertad y la democracia". Al regreso, si no mueren, les conceden el derecho a ser ciudadanos de Estados Unidos. Como están bien entrenados les ofrecen la posibilidad de contratarlos no como soldados oficiales, pero sí como civiles soldados de las empresas privadas que prestan servicios en las guerras imperiales de conquista.

Existen otros gravísimos peligros. Constantemente llegan noticias de los emigrantes mexicanos y de otros países de nuestra área que mueren intentando cruzar la actual frontera de México y Estados Unidos. La cuota de víctimas cada año supera con creces la totalidad de los que perdieron la vida en los casi 28 años de existencia del famoso muro de Berlín.

Lo más increíble todavía es que apenas circula por el mundo la noticia de una guerra que cuesta en este momento miles de vidas por año. Han muerto ya, en el 2009, más mexicanos que los soldados norteamericanos que murieron en la guerra de Bush contra Irak a lo largo de toda su administración.

La guerra en México ha sido desatada a causa del mayor mercado de drogas que existe en el mundo: el de Estados Unidos. Pero dentro de su territorio no existe una guerra entre la policía y las fuerzas armadas de Estados Unidos luchando contra los narcotraficantes. La guerra ha sido exportada a México y Centroamérica, pero especialmente al país azteca, más cercano al territorio de Estados Unidos. Las imágenes que se divulgan por la televisión, de cadáveres amontonados y las noticias que llegan de personas asesinadas en los propios salones de cirugía donde intentaban salvarles la vida, son horribles. Ninguna de esas imágenes procede de territorio norteamericano.

Tal ola de violencia y sangre se extiende en mayor o menor grado por los países de Suramérica. ¿De dónde proviene el dinero sino del infinito manantial que emerge del mercado norteamericano? A su vez, el consumo tiende también a extenderse a los demás países del área, causando más víctimas y más daño directo o indirecto que el SIDA, el paludismo y otras enfermedades juntas.

Los planes imperiales de dominación van precedidos de enormes sumas asignadas a las tareas de mentir y desinformar a la opinión pública. Cuentan para ello con la total complicidad de la oligarquía, la burguesía, la derecha intelectual y los medios masivos de divulgación.

Son expertos en divulgar los errores y las contradicciones de los políticos.

La suerte de la humanidad no debe quedar en manos de robots convertidos en personas o de personas convertidas en robots.

En el año 2010, el gobierno de Estados Unidos empleará 2 200 millones de dólares a través del Departamento de Estado y la USAID para promover su política, 12% más que los recibidos por el gobierno de Bush el último año de su mandato. De ellos, casi 450 millones se destinarán a demostrar que la tiranía impuesta al mundo significa democracia y respeto a los derechos humanos.

Apelan constantemente al instinto y al egoísmo de los seres humanos; desprecian el valor de la educación y la conciencia. Es evidente la resistencia demostrada por el pueblo cubano a lo largo de 50 años. Resistir es el arma a la que no pueden renunciar jamás los pueblos; los puertorriqueños lograron parar las maniobras militares en Vieques, situándose en el polígono de tiro.

La patria de Bolívar es hoy el país que más les preocupa, por su papel histórico en las luchas por la independencia de los pueblos de América. Los cubanos que prestan allí sus servicios como especialistas en la salud, educadores, profesores de educación física y deportes, informática, técnicos agrícola, y otra áreas, deben darlo todo en el cumplimiento de sus deberes internacionalistas, para demostrar que los pueblos pueden resistir y ser portadores de los principios más sagrados de la sociedad humana. De lo contrario el imperio destruirá la civilización y la propia especie.

Venezuela recupera rádios para o serviço público


Elaine Tavares - Jornalista


A mídia comercial brasileira, copiadora número um da matriz CNN, que transmite em espanhol, para toda a América Latina, bombardeou os leitores/espectadores/ouvintes com críticas ao governo venezuelano que, na semana passada, encerrou a transmissão de 34 emissoras de rádio naquele país. Não faltaram os comentários raivosos sobre a "ditadura chavista" e muito menos as entrevistas - à exaustão - com os representantes da direita golpista da Venezuela falando da "falta de democracia" de Hugo Chávez.

O que a maioria dos veículos não disse - e se disse foi de forma superficial - é que estas emissoras estavam irregulares perante a lei de radiodifusão. Algumas delas seguiam funcionando mesmo depois que os legítimos possuidores da concessão já haviam falecido, sendo utilizada a conhecida figura do "laranja". Conforme a lei daquele país, isso não é possível. As ondas eletromagnéticas são uma concessão pública e cabe ao Estado fazer cumprir a lei, caso contrário cai por terra o conceito liberal de "estado democrático e de direito". Mas, aos liberais, isso, vindo de Chávez, é ditadura. Coisa difícil de entender, não?

Outra informação que a mídia não dá de forma clara é que as freqüências, que funcionavam de forma ilegal e que foram retomadas pelo Estado, passarão por nova licitação e devem ser entregues às entidades comunitárias, para que voltem a apresentar o caráter público que deviam ter. Segundo o ministro de Obras Públicas y Vivienda, Diosdado Cabello, a anulação das concessões se deu não só naquelas em que o titular já havia falecido, mas também nas que estavam com a validade da concessão vencida e sequer se dignaram a comparecer ao órgão responsável por esta questão, a Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel) durante o período que havia sido indicado através de correspondência, demonstrando completo desrespeito com a lei.

O Ministro também informou que existe na Conatel um número muito grande de pedido de concessão e que agora o órgão deve abrir novas licitações. O presidente venezuelano Hugo Chávez afirmou que não há qualquer ataque a liberdade de expressão, pelo contrário, os veículos foram devolvidos ao povo, uma vez que não cumpriam com suas obrigações.

Mas, o certo é que este ato ainda vai render muito pano para manga, principalmente nos grandes veículos de comunicação do chamado "mundo livre", o qual só considera liberdade de expressão a sua própria. Já cumprir a lei e verdadeiramente democratizar a comunicação passa a ser coisa de "ditador". Ninguém na televisão foi capaz de informar que no Brasil existem centenas de emissoras comerciais funcionando com a concessão vencida, enquanto as rádios comunitárias seguem sendo estouradas pela Anatel.

Só para lembrar, recentemente o ministro do STF, Gilmar Mendes, acabou com a exigência do diploma para a profissão de jornalista justamente em nome da chamada "liberdade de expressão" dos donos de empresas. Não é à toa que, de maneira hipócrita, os bocas-alugadas estejam fazendo discursos inflamados contra a decisão do governo venezuelano. Já pensou se aqui no Brasil o governo decidisse cumprir a lei? Só em Santa Catarina tramita um processo contra a poderosa Rede Brasil Sul de Comunicação - que, de forma aberta e pública se expressa como um oligopólio - mas caminha a passos lentos. E tudo o que se quer é que a Constituição seja cumprida. Mas, quando ela vai contra os poderosos aí fica parecendo que é coisa de "ditador". No mundo liberal burguês a lei só se cumpre contra os pobres.

segunda-feira, agosto 03, 2009

A CPI da Petrobrás golpeará os que a promovem


Mauro Santayana

O governo decidiu aceitar a instalação da CPI da Petrobras. Poderia tê-lo feito antes, uma vez que dispõe de maioria no Senado. Agira com prudência, ao tentar impedi-la, porque a Petrobras – a maior empresa brasileira, e uma das maiores do mundo – tem as suas ações negociadas nas bolsas internacionais, e qualquer suspeita sobre suas atividades lhe acarretará danos. Duas devem ter sido as razões principais que orientaram o Planalto a solicitar a instalação do colégio investigador. Diante da crise na Câmara Alta, é melhor que a instituição saia do círculo de giz, e passe a atuar, ainda que por iniciativa da oposição e contra o próprio governo, e o presidente confia na lisura das atividades da empresa. Além disso, as principais figuras da oposição se encontram enodoadas com os escândalos. Se o Senado se encontra desmoralizado diante da opinião pública – e é inegável que assim está – situação e oposição se acham sob a mesma tacha. Escapam, como tantos já constataram, algumas poucas ovelhas, em rebanho enegrecido pelas cinzas da corrupção. As circunstâncias fecham com escolhos o trajeto da CPI. Dificilmente as suas sessões serão acompanhadas pelo interesse da cidadania, cansada dos mesmos comediantes de sempre.

A Petrobras, com todos os seus êxitos, vale mais como símbolo da obstinação brasileira do que pelos seus resultados econômicos, por maiores eles sejam. Suas imensas receitas, que nos ajudaram a vencer as duras dificuldades do subdesenvolvimento, revelam a inteligência de nossos geólogos, engenheiros de minas, engenheiros mecânicos e trabalhadores comuns. Essa massa de pesquisadores e inventores não se reuniria, sem que a precedessem os atos políticos de brasileiros comuns, entre eles intelectuais e jornalistas, como Monteiro Lobato, Gondim da Fonseca, Domingos Velasco e Mattos Pimenta, Joel Silveira, Barbosa Lima, Oscar Niemeyer e muitos outros.

Os mais jovens não sabem o que é um povo sem petróleo. Durante muito tempo comprávamos, dos Estados Unidos, a gasolina a conta-gotas, e mantínhamos estoques de curta duração. A energia sempre foi arma estratégica. A partir do momento em que a gasolina servia de suporte a uma forma de vida – também ela importada do Norte – dela não poderíamos prescindir. Se houvesse, por acaso, uma guerra em que o Brasil se envolvesse com qualquer vizinho, bastaria aos norte-americanos fechar o nosso suprimento e favorecer o inimigo. Pouco a pouco, fomos construindo pequenas refinarias, mas sempre dependíamos do petróleo bruto, e esse estava sob o controle das sete irmãs. Temos a acrescentar que a iluminação elétrica era luxo de algumas cidades. A iluminação das casas, no vasto interior, quando não se fazia com o óleo de mamona, dependia do querosene Jacaré, produzido, importado e distribuído em latas de 20 litros pela Standard Oil. Nos morros do Rio de Janeiro e nos subúrbios das cidades maiores do resto do país, as lamparinas se alimentavam desse combustível.

Impingiram-nos a ideia de que no Brasil não havia petróleo. Os gases emanavam de fendas no solo, aqui e ali, e, de alguns poços pioneiros – como o de Lobato, na Bahia – ele chegou a jorrar com timidez, mas, segundo alguns, não tínhamos o óleo. Havia petróleo na Argentina, na Bolívia, no Paraguai, na Venezuela, na Colômbia, no Peru – não em nosso solo.

A criação da Petrobras custou o suor e o sangue de muitos brasileiros. Podemos encontrar dezenas de explicações para a morte de Getúlio, em agosto de 1954, todas marcadas pelo petróleo. A sanção da lei que criara a empresa, em outubro do ano anterior, enfrentou a reação orquestrada da grande imprensa, a serviço dos interesses externos. Vargas só contava com os trabalhadores e com os estudantes, que não dispunham do poder de mobilizar os militares, como fizeram Lacerda e outros. A Petrobras, que afrontou todas as dificuldades para consolidar-se, foi recentemente mutilada pelo governo tucano, que rompeu o monopólio estatal e abriu seu capital aos estrangeiros. A iniciativa da CPI, à parte o interesse em desestabilizar o governo, visa a favorecer a entrega do petróleo do pré-sal a empresas multinacionais. Se existem irregularidades na Petrobras, há como identificá-las e saná-las, mediante os organismos oficiais de controle, como o TCU, a CGU e o Ministério Público – com rigor, e sem espetáculo.

A CPI da Petrobras provavelmente terá o percurso de um bumerangue: golpeará os que a promovem.

quarta-feira, julho 29, 2009

Honduras - O interino


Elaine Tavares

Diz o Rubem Alves que as pessoas engravidam é pelo ouvido. E creio nisso, afinal, somos um país oral. A educação - vide voto do presidente do STF, Gilmar Mendes, sobre o diploma de jornalista - não está ao alcance de qualquer um. Ela é relegada aos filhos da elite, esses sim precisam estudar e aprender. Os demais, só precisam da escola funcional, que dá o mínimo de competência para girar a máquina do capital. Por isso, a televisão é que acaba sendo a "universidade" das gentes.

Triste destino esse. Afinal, nada mais servil e mancomunado com a classe dominante do que a televisão. É ali, na telinha, que se expressa a ideologia do sistema capitalista, calcado na opressão. Espaço de meias-verdades e grandes mentiras. Lugar das bocas-alugadas, dos jornalistas a soldo da elite nacional entreguista. Claro que há exceções, mas isso só confirma a regra. Então, para a maioria, que se informa pelo tubo de luz, resta a de-formação, a universidade ao revés.

Nestes dias em que o mundo acompanha o golpe de estado em Honduras, pode-se perceber como o discurso vai mudando. Na primeira semana era o golpe e havia a condenação mundial. Não havia como não anunciar. Mas, ainda assim, os motivos mesmo do conflito ficavam perdidos no meio das dezenas de notícias desconectadas. Assim, ao final do telejornal, permanece apenas a sensação de que algo está passando em Honduras, mas não se sabe bem o quê. O certo é que é culpa de Hugo Chávez, o "monstro" venezuelano que quer ressuscitar o comunismo.

Neste sábado chegamos ao paroxismo do deboche. A CNN em espanhol que transmite via cabo para toda a América Latina, desde o começo da quartelada em Honduras tem claramente apoiado os golpistas. Eles são as estrelas, são os entrevistados e a vozes que falam por Honduras. Tudo bem, até aí nenhuma novidade já que a CNN é o braço midiático dos Estados Unidos na América Latina. Mas, desde hoje, a empresa que transmite direto de Atlanta, ainda que em espanhol, começou a chamar o governo de Micheletti de "governo interino". Ora, essa é um pouco demais. Já não é golpe, já não é quartelada, é só um governo interino de transição. Mas de transição a quê?

O que é pior é que as redes brasileiras, acostumadas a chuparem tudo da matriz estadunidense, também começaram a reproduzir este "eufemismo" e os espectadores já estão sendo informados de que o "governo interino de Honduras está tendo de mandar o exército contra o povo porque o presidente irresponsável, Mel Zelaya, quer entrar no país". Ou seja, o roteiro foi todo alterado. Zelaya é o responsável pelas mortes e prisões. Hugo Chávez é o mentor de tudo e o exército hondurenho, golpista, é "obrigado" a oprimir um povo que só quer ver respeitada a sua Constituição. Já Micheletti é o "interino". Bem , Noam Chomski já desvelou esse bem urdido sistema de propaganda ideológica que é a mídia.

E no meio deste turbilhão de mentiras e discursos distorcidos, o povo, ouvinte, vai engravidando e dando à luz monstros informacionais, deturpados e disformes. A história vai mudando e a verdade vai se esfumaçando. Só fica o discurso dominante de apoio ao golpe, contra Chávez e contra o direito das gentes hondurenhas de ter uma vida melhor. Os repórteres falam que o governo "interino" de Honduras só quer fazer justiça e prender Zelaya. Seu crime: querer fazer uma consulta popular. Ninguém diz isso. E la nave vá. Minha esperança é que aquela gente simples que vejo na tela da Telesur possa resistir, sacar os golpistas do poder e restituir a verdade dos fatos.

segunda-feira, julho 27, 2009

Governar e civilizar só são possíveis com a Constituição



“O golpe morre ou morrem as Constituições” (Fidel Castro)
Carlos Henrique de Pontes Vieira

A América Latina está vivendo a sua primavera, descobrindo-se a si mesma, madura, com suas novas Constituições Democráticas, tentando a todo custo a sua independência do Grande Irmão do norte hegemônico e autoritário, bem como tentando impor uma nova ordem social e econômica mais includente, quando é surpreendida agora pela provável cumplicidade norteamericana com o golpe de Estado perpetrado contra Honduras.

Quando os países da região tentam avançar rumo à democracia direta, a grande mídia, articulada pelos donos do mundo, por um lado reverbera um discurso ideológico revelando o seu caráter conservador e antidemocrático, por outro, omite os fatos mais graves que estão ocorrendo neste país, um dos mais pobres da região, denunciados pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) que insistiu nesta segunda-feira com o governo golpista, liderado por Roberto Micheletti, que vele pela vida dos cidadãos, depois do assassinato do jovem Pedro Magdiel Muñoz, durante a repressão policial de sexta-feira passada contra milhares de manifestantes que se dirigiam à fronteira com a Nicarágua para receber o presidente constitucional, Manuel Zelaya.

A União Européia já tomou atitudes concretas, bloqueando verbas destinadas a Honduras, combinando com o que verbalizou a ONU e a OEA. Já os Estados Unidos mantém dois discursos antagônicos: o de Barack Obama contra o golpe, e o outro da CIA, do Senado e do Departamento de Estado a favor. Não apenas isso, mas incrementa suas bases militares na Colômbia, como se o golpe de Honduras representasse apenas um ensaio para outros golpes que estão por vir.

A barulheira midiática é enorme quando se trata de Hugo Chàvez na Venezuela, Evo Morales na Bolívia e Rafael Correa no Equador, presidentes que não se arredam um milímetro sequer de suas Constituições, pelo contrário, ampliam a soberania popular, que é o princípio basilar das Constituições modernas, inclusive a de 1988 do Brasil.

Nossa Constituição determina no seu art. 14 que a soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante: I – plebiscito; II – referendo; III – iniciativa popular. Esses institutos são muito menos usados entre nós do que entre nossos vizinhos tão satanizados pelos EEUU e por nossa mídia.

Em pleno século XXI quando governar e civilizar só são possíveis com a Constituição e o Estado Social, mas o que vemos é o comportamento político truculento recrudescer à moda dos anos 60 e 70 do século passado, vale a pena lembrar o escritor português Antonio Feliciano Castilho quando diz que o sol não retrocede no dia, os anos não retrogradam nas eras, a árvore não reverte à semente, nem o rio à fonte, nem o homem à infância, nem a civilização à barbárie. Quem não for com a corrente das coisas, maravilhosa corrente que sobe sempre para as alturas desconhecidas, se há de afogar.

CIDH exige que se resguarde a vida dos hondurenhos

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) insistiu nesta segunda-feira com o governo golpista, liderado por Roberto Micheletti, que vele pela vida dos cidadãos do país, depois do assassinato de Pedro Mandiel, durante a repressão policial da sexta-feira passada contra milhares de manifestantes que se dirigiam à fronteira com a Nicarágua para receber o presidente constitucional, Manuel Zelaya.

Chile: com 74% de aprovação, Bachelet tenta fazer sucessor


Nunca antes na história do Chile redemocratizado — de 1990 para cá — houve um presidente tão popular como Michelle Bachelet. Em julho, ela atingiu 74% de aprovação e devolveu à sua desgastada coalizão centro-esquerdista a esperança de eleger seu quinto presidente nas eleições de dezembro.

Há um ano, nem seus apoiadores mais entusiastas arriscariam o cenário acima: em 2008 Bachelet tinha aprovação mediana e via o megaempresário Sebastián Piñera, candidato presidencial direitista que ela derrotou em 2006, tomar ampla dianteira nas pesquisas.

A virada de roteiro veio com a crise econômica, que redimiu a presidente acusada, à direita e à esquerda, de falta de ousadia. Ora por não promover bastante crescimento, ora por não aplicar a contento o dinheiro gerado pela alta do cobre, metade das exportações do país, na redução da desigualdade ou em reformas na educação.

Foi então que a austera política econômica de Bachelet deu o troco. O financiamento de um pacote de estímulo, de cerca de 3% do PIB, veio de parte dos US$ 21 bilhões gerados pelo cobre e poupados em um fundo soberano no exterior. Bachelet lançou planos de obras, distribuiu subsídios, reduziu impostos e reforçou também programas de transferência de renda.

O governo acelerou ainda a incorporação de idosos pobres na Previdência "solidária", parte da reforma do sistema, prioritária para Bachelet, destinada a reverter excessos da reforma ultraliberal feita por Augusto Pinochet (1973-1990).

A aprovação da gestão tornou mais frequente no discurso do oposicionista Piñera a promessa de que ele vai "manter e ampliar" a "rede de proteção social" de Bachelet, enquanto sumiram ataques diretos a ela, num dilema parecido ao da oposição ante Luiz Inácio Lula da Silva e o Bolsa Família.

Renovação

O candidato direitista, de 59 anos, segue liderando as pesquisas. Mas em junho, pela primeira vez, ele empatou tecnicamente com o nome da aliança governista, a Concertação, na simulação de segundo turno. O cientista político Patrício Navia, professor da Universidade de Nova York, diz que a popularidade da presidente ajudou nesse resultado — mas que também influiu o estoque de votos centro-esquerdistas na tradicional polarização do eleitorado chileno.

Para forçar que a balança penda para seu lado, Piñera apela com um argumento difícil de rebater: o de que é hora de mudar após 20 anos de poder da Concertação, que tem no Partido Socialista (PS), de Bachelet, e na Democracia Cristã (DC), centrista, seus pilares.

A mensagem tem mais eco diante da escolha dos governistas para a disputa: o senador e ex-presidente (1994-2000) Eduardo Frei, de 67 anos, da DC. Frei, mais conservador que Bachelet em termos econômicos e comportamentais, como o aborto, ganhou a candidatura diante da desistência em disputar as primárias do ex-presidente Ricardo Lagos (PS), e do secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza.

sábado, julho 25, 2009

À Igreja de Honduras e ao Cardeal Oscar Andrés Rodríguez


Adolfo Pérez Esquivel - Escritor Prêmio Nobel da Paz

O golpe de Estado em Honduras, desatado pela ditadura militar e seus cúmplices, trouxe morte, centenas de detidos, jornalistas perseguidos e presos, tendo seus equipamentos confiscados e seus direitos humanos violados.

Essa situação leva a perguntar ao Cardeal Rodríguez, ao ditador Micheletti e seus sequazes: Isso é o que esperavam? Assassinar pessoas indefesas, suspender as garantias constitucionais do povo, prender e reprimir aos que reclamam seus direitos e a restituição do presidente Zelaya em suas funções?

Cardeal Oscar Andrés Rodríguez, o caminho que elegeste de ser cúmplice da ditadura militar não é o caminho do Evangelho. Não podes estar contra teu povo e permitir a violência e a repressão que, em nome da suposta segurança e do direito, comete graves violações, precisamente, aos direitos humanos.

O pastor que abandona suas ovelhas e permite as atrocidades e apóia a ditadura para defender seus interesses econômicos e políticos, não é digno de ser reconhecido como Pastor de Cristo e de seu povo.

Na América Latina temos uma larga e dolorosa história de ditaduras militares e cumplicidades de hierarquias eclesiásticas que estiveram ao serviço da opressão e foram cúmplices da morte e do desaparecimento de pessoas, de torturas, para impor o terrorismo de Estado.

Lamentavelmente, essa atitude continua em vários países, como na Bolívia, com o comportamento do Cardeal Terrazas, que se aliou e apoiou aos golpistas para tentar derrocar o presidente Evo Morales. Na Venezuela, a hierarquia eclesiástica apoiou o golpe militar contra o presidente Hugo Chávez.

Escutei tuas declarações contra o presidente venezuelano. Tens o direito de dissentir; porém, não o de difamar. Nunca escutei tuas declarações para condenar a intervenção dos Estados Unidos em teu país e no continente, ou sobre as atrocidades cometidas na Colômbia e sobre a incursão armada contra o povo irmão do Equador.

Graças a Deus, existem signos de esperança e horizontes de vida e dignidade de irmãos e irmãs que, fieis ao Evangelho e a seu povo, se comprometem e lutam por um mundo mais justo e humano e muitos deles deram sua vida para dar Vida; são os mártires da Igreja que nos ensinam a seguir o caminho de Cristo. Recordas a nosso irmão Dom Romero, em El Salvador?

Sabes que Honduras é um país com uma larga história de intervenções dos EUA, apoiados por grupos econômicos, políticos e eclesiásticos. Hoje, esses mesmos grupos de poder, com a cumplicidade do embaixador dos EUA em Honduras, quem confessa que esteve reunido com os golpistas, se opõem às reformas propostas pelo presidente Zelaya e decidem dar o golpe de Estado para negar a Consulta Popular.

Que temes, irmão Rodríguez? Temes teus próprios medos? Temes a Consulta Popular através da qual o povo pode decidir o caminho a seguir? Tens medo dos pobres, de que eles participem e queiram aderir à Aliança Bolivariana dos povos das Américas (ALBA) e não se submeter ao TLC, que significa mais dependência dos EUA, e que essa decisão afete os interesses econômicos daqueles que sempre oprimiram o povo hondurenho?

Recorda que Honduras tem 70% da população na pobreza e 58% abaixo do nível de pobreza; situação provocada pela injustiça social e estrutural. Ao recorrer à violência contra o povo para sustentar a situação de injustiça estrutural e social, a situação tornou-se incontrolável. Estão como o "aprendiz de feiticeiro", já não sabem como pará-la.

A comunidade internacional reclama o imediato regresso do presidente Zelaya. A OEA, a ONU, setores sociais, políticos e religiosos, como os Bispos do Brasil, Dom Pedro Casaldáliga e Dom Demétrio Valentini, reclamam a volta à legalidade e o respeito à vontade do povo.

Escuta a voz do Bispo de Copán, de tua terra; escuta as milhares de vozes de todo o continente e do mundo, que rechaçam a ditadura.

Se o presidente Zelaya cometeu um delito, ou qualquer falta, o país tem a Constituição Nacional e as leis vigentes para determinar sua responsabilidade. Porém, vocês impedem a aplicação da lei e recorrem ao golpe de Estado. E pretendem disfarçar seus crimes com palavras vazias de conteúdo. Falam do Direito e da Constituição, da dignidade humana e os violam e contaminam, e respondem reprimindo o povo, provocando mortes e feridos.

Por que tantas contradições e falta de valores? O que têm a ver essas atrocidades com a mensagem de Cristo? Espero que em tuas orações Deus te guie e ilumine, porque estás perdido no emaranhado da incerteza. Até quando pensas continuar fazendo o papel de inquisidor, apoiando aos verdugos que implantaram o terror e assumiram o poder em tua terra?

Tens consciência de que o golpe de Estado em Honduras é um perigo para a democracia no continente? O povo tem direito à resistência frente às injustiças, a não cooperar com os opressores, a desconhecer os que usurparam o poder. E os governos e povos latinoamericanos têm a responsabilidade de desconhecer a um governo legítimo e repressor.

Muitos anos de luta e sofrimento implantado pelas ditaduras em todo o continente nos ensinaram na dor que é preferível morrer como homens e mulheres livres do que viver como escravos. Porque a esperança sempre nos mostra um novo amanhecer para a vida e para a dignidade de nossos povos.

Temos que resistir na esperança, irmão Rodríguez, e essa esperança está caminhando junto aos povos e nunca no caminho dos opressores. Tens que optar, como homem e como pastor: servir a Deus e a teu povo ou servir aos opressores e poderes de turno. São muitas as perguntas. Tu tens a resposta.

"Só a Verdade nos fará livres". Que o Deus da Vida te guie e ilumine e em sua Paz e Bem.

terça-feira, julho 21, 2009

Avante, Povo de Honduras !


Honduras

A vós que hasteais
da liberdade, a bandeira:
o golpe, jamais !

Carlos Henrique de Pontes Vieira

Bravamente, o povo de Honduras luta para reconstituir o seu Estado Democrático de Direito.

Sob o argumento de que o presidente ferira a Constituição, a elite e as forças armadas hondurenhas, apoiadas pelos falcões americanos, resquícios da administração Bush, assassinaram esta mesma Constituição que dizem defender, como se assassiná-la não fosse um crime pior do que feri-la. Isto porque um golpe de Estado é o crime máximo perpetrado contra a Constituição promulgada de um Estado Democrático de Direito, por desrespeitá-la em todos os seus artigos, enfim, assassiná-la mesmo.

Nas Constituições promulgadas do ocidente, os crimes do presidente são julgados pelo “impeachment”, respeitados os princípios democráticos do devido processo legal e do contraditório.

O Direito e as Constituições são manifestações do espírito humano em busca do aperfeiçoamento do processo civilizatório. Sem eles implanta-se a truculência, a barbárie. Se um golpe de Estado é tolerado, outros poderão advir sob o argumento de que já foi aberto o precedente.

Paulo Bonavides, nosso jurista da melhor cepa, em seu livro Teoria Constitucional da Democracia Participativa, comenta que sem Constituição não há justiça, não se governa nem se alcança legitimidade; sem igualdade o direito é privilégio social; sem liberdade a cidadania é cadáver, a lei é decreto do despotismo, a autoridade braço da força que oprime, a segurança jurídica argumento da razão de Estado absolvendo e anistiando os crimes do poder.

Todos os organismos internacionais tais como a Organização das Nações Unidas, a Organização dos Estados Americanos, a União das Nações da América do Sul e a União Européia, enfim, a comunidade internacional condenou este golpe. Urge, portanto, que sejam tomadas medidas eficazes contra a tirania, sob o risco de haver uma violenta insurreição popular e o conseqüente tiranicídio, aliás há muito justificado por Santo Tomás de Aquino.

quinta-feira, julho 16, 2009

O "lobby" golpista aposta tudo em Hillary

No domingo o Los Angeles Times alegou que a derrubada do presidente Manuel (Mel) Zelaya é diferente – “exemplo de uma rebelião de novo tipo na luta da América Latina, no qual os líderes da esquerda desafiam o status quo e testam os limites da democracia”. Afirmou ainda: “naquela noite os militares de Honduras desligaram telefones para não ter de falar com autoridades dos EUA”. Será? Na verdade até o truque de fingir que nada tem a ver com o golpe pode ser repetição de ações passadas dos EUA.

Argemiro Ferreira

Bastaria um mínimo de atenção às fotos da situação em Honduras (com repressão de protestos, ataque a jornalistas e reza de marchadeiras) para qualquer um concluir que o golpe militar em nada difere de outros da tradição imposta ao continente para servir aos EUA – desde os tempos da United Fruit, que deu origem à expressão “república de banana” e nas últimas décadas tem mudado de nome (foi também United Brands, mas agora virou Chiquita Brands).

No domingo o Los Angeles Times alegou que a derrubada do presidente Manuel (Mel) Zelaya é diferente – “exemplo de uma rebelião de novo tipo na luta da América Latina, no qual os líderes da esquerda desafiam o status quo e testam os limites da democracia”. Afirmou ainda: “naquela noite os militares de Honduras desligaram telefones para não ter de falar com autoridades dos EUA”.

Será? Na verdade até o truque de fingir que nada tem a ver com o golpe pode ser repetição de ações passadas dos EUA (como em 1964, quando o cínico embaixador Lincoln Gordon jurou que o golpe tinha sido “100% brasileiro”). Em Honduras outra semelhança foi a ação precipitada de grupelhos: como a de um general e dois coroneis que invadiram a casa de Zelaya de madrugada, arrancaram-no da cama e tornaram o golpe fato consumado ao enfiá-lo de pijama no avião militar.

Um golpe igual aos outros

Ao contrário do que disse o Times californiano, nada se inovou, foi “golpe no velho estilo” – expressão usada por outro jornal americano em 1964, para qualificar o que acontecia então no Brasil. Os ingredientes estão no próprio relato do diário de Los Angeles: elite indignada com gastos em programas sociais, coro da mídia golpista e a palavra piedosa de figurões da Igreja pagos pelos bushistas do National Endowment for Democracy (NED).

Observem o que ocorre agora. Pelo menos mais dois líderes de movimentos populares foram assassinados. Roger Bados (do Bloco Popular e da Resistência Popular, além de membro da coalizão do governo Zelaya), foi baleado e morto em San Pedro Sula. Ramon Garcia foi retirado por militares do ônibus em que viajava e executado. Anunciou-se a suspensão do toque de recolher, mas ele continua em vigor.

Essas e outras informações estão no website “Postcards from the Revolution” de Eva Golinger, advogada venezuelana que atua em Nova York e publicou, entre outros livros, The Chávez Code – Cracking US Intervention in Venezuela (O Código Chávez – Destroçando a intervenção dos EUA na Venezuela), sobre o golpe fracassado de 2002. Ela citou ainda a prisão e expulsão de jornalistas estrangeiros da agência espanhola EFE e de dois canais da Venezuela, Telesur e VTV.

Um jornal de Tegucigalpa citou com ligeireza o fato, atribuindo as prisões insolitamente a “roubo de carro”. Os veículos hondurenhos adotam uma linha golpista semelhante à da mídia brasileira. Filiam-se todos, como a nossa grande imprensa, à notória Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), que se diz defensora da liberdade de imprensa mas tradicionalmente aplaude os golpes apoiados pelos EUA – como o de Pinochet no Chile em 1973.

O lobista e as marchadeiras do cardeal

O golpe trouxe ainda a versão hondurenha da “marcha da família com Deus pela liberdade”. Como os golpistas foram incapazes de obter reconhecimento em qualquer país (até Israel repudiou a idéia), o cardeal Andrés Rodriguez (beneficiário de verbas do NED, a organização dos EUA que patrocina golpes a pretexto de defender a democracia) faz concentrações e rezas em vários países implorando a Deus pelo sucesso do golpe.

O dado mais preocupante, revelado pelo New York Times, é sobre uma ofensiva de relações públicas lançada pelos golpistas nos EUA. Segundo o jornal, já trabalha nesse sentido junto à secretária Hillary Clinton (de quem foi conselheiro na campanha presidencial de 2008) o lobista Lanny J. Davis, ex-advogado pessoal do presidente Bill Clinton na Casa Branca. Outro ligado a Clinton que já estaria a serviço dos golpistas é Bennett Ratcliff, da Califórnia.

A ofensiva golpista nos EUA pode revelar-se decisiva. Se Barack Obama declarou-se no primeiro momento pelo imediato retorno ao poder do presidente legítimo (Zelaya), sua secretária de Estado tem sido ambígua. Agora, destacou Golinder, Hillary pode até já ter concordado com cinco condições (exigidas pelos golpistas) que ameaçam reduzir Zelaya a mera figura decorativa:

1. Zelaya teria a presidência mas não o poder;
2. Ficaria proibido de insistir no plano de reforma da Constituição ou mesmo de realizar referendos ou votações de qualquer natureza;
3. Seria obrigado a se distanciar do presidente venezuelano Hugo Chávez;
4. Compartilharia a governança com o Congresso e os golpistas até o fim do mandato;
5. Assumiria o compromisso de anistiar os envolvidos no golpe.

“El negrito que no sabe de nada”?

Também nisso o golpe de Honduras imita o Brasil – de 1961, quando militares golpistas exigiram que se retirasse os poderes de João Goulart antes de empossá-lo. Nada destoa do figurino clássico do golpe latino-americano, até por ter nascido em Honduras a expressão banana republic. Só o que difere é a reação inicial de Obama, enfático no repúdio. Terá ele depois deixado a bola para o Departamento de Estado que herdou de Bush?

Ali dois veteranos do golpe venezuelano de 2002, Thomas A. Shannon e Hugo Llorens, podem tentar sob a liderança da secretária Hillary desconstruir Obama. Shannon está onde Bush o colocou – é secretário assistente para assuntos hemisféricos, o mesmo posto no qual seu ex-chefe cubano Otto Reich encaminhara o outro golpe (revertido em 48 horas). E em Tegucigalpa está Llorens, enviado no ano passado por Bush.

Quadro perfeito para o contágio no continente, onde a mídia parece atraída por modelito “diferente” – a new kind of coup, na expressão do Los Angeles Times – para responder ao que a elite latino-americana teme como ameaça a séculos de sua perversidade social. Só não faz sentido ver Obama metido no papel de um Bush obcecado por Chávez, já que sua promessa foi o contrário: mudança.

Estará nos planos do presidente americano, a reboque da secretária de Estado, tal confraternização promíscua com a insaciável elite branca, tão bem representada na figura grotesca de Enrique Ortez Colindres, ministro do Exterior do golpe, que escancarou o racismo ao reagir ao repúdio de Obama? “Ele é só um negrinho que não sabe de nada”, disse. Colindres, claro, teve de cair fora. Mas o resto da turma golpista, de igual linhagem nobre, confia na loura Hillary.

Barack Obama e o golpe em Honduras




Carmelo Álvarez

É frustrante e amargo perceber as realidades que rodeiam a presidência dos Estados Unidos. Às vezes penso que Obama sente-se muito mais cômodo na presidência do que George W. Bush. Era evidente o rosto incômodo e o sofrimento penoso de Bush durante sua presidência. Não é segredo que a presidência era demais para ele, mesmo no sentido protocolar. Somente Gerald Ford o supera. Era tétrico vê-lo na televisão após muitas horas de ensaio, vê-lo tão inseguro diante das câmaras. Dizem por aqui que Karl Rove, seu amigo íntimo e assessor, até comunicava-lhe o que devia dizer nos debates presidenciais, através de um artefato tecnológico. Era uma mútua companhia de meninos medíocres e teimosos.

Porém, sempre nos perguntamos como operam os mecanismos e as influências que rodeiam a presidência dos EUA. O assunto é complexo. Em uma ocasião, o Sr. Rodrigo Carazo, naquela oportunidade presidente da Costa Rica (1978-1980), me comentava o difícil que era orientar-se em Washington, porque eram poderes em luta e muitas vezes descoordenados. Tentar entrevistar-se com funcionários dos distintos poderes do governo era como montar um quebracabeças.

Chegar até a Sala Oval da Casa Branca não é um processo simples. Imagino que quando se chega ali, coça-se a cabeça e diz-se: "Meu Deus, onde me meti". Estou quase certo de que Obama fez essa mesma pergunta. Nós, os homens negros, temos que fazer a pergunta em nosso íntimo porque o império não cede facilmente e carrega sobre nossos ombros o peso da dúvida. Eu experimentei isso quando me deram cargos de relevância em uma instituição educativa estadunidense eminentemente branca, e todo mundo se surpreendeu. Um latino nessa posição?! Jamais!

Sendo bem transparentes: para o império, o remédio foi eleger a Barack Obama. E uma vez que ele ganhou a primária democrata, teve que fazer negociações importantes em seu partido para chegar até a eleição presidencial! Devo sublinhar algo: tenho simpatia por Obama como pessoa. É inteligente. E a presidência não o incomoda. Porém, sejamos honestos, a presidência dos EUA não obedece a um indivíduo; nunca foi assim. É uma instância manejada por poderes justapostos e rodeados por múltiplos interesses que têm poderes econômicos extraordinários.

Barack Obama projetou uma imagem aceitável nos âmbitos internacionais; mesmo Fidel Castro reconhece isso. Porém, sua retórica está em conflito com seu poder real. Obama ganhou a presidência dos EUA; porém, não o poder imperial. Não controla nem o Pentágono, nem a política exterior. Esse é o verdadeiro poder em Washington. O Congresso e o Senado obedecem, na maioria dos casos, a esses interesses mais do que aos ditames da Casa Branca.

Assim, me parece crucial colocar em perspectiva o que sucede na América Latina e no Caribe em relação à administração Obama. Observe-se que Arturo Valenzuela, um cientista político chileno, muito próximo a Bill e a Hillary Clinton, é o novo subsecretário do Departamento de Estado para Assuntos Interamericanos e obedece a eles mais do que a Obama. Quando estou escrevendo isso, Thomas Shannon, republicano conservador próximo a Bush, continua conduzindo a política do Departamento de Estado dos Estados Unidos para a região Latinoamericana e Caribenha. Poderíamos, então, afirmar, sem medos de equivocar-nos, que a maioria dos postos chave na administração Obama estão nas mãos de políticos próximos e protegidos pelos Clinton. Além disso, poderíamos afirmar com muita pena que pessoas chave da administração Bush todavia têm grande ascendência e controle sobre muita informação e estratégia política e militar, além do que a administração Obama deseja. Hillary Clinton está em um fogo cruzado feroz entre os republicanos infiltrados em sua secretaria de Estado (John Negroponte, de ingrata recordação na América Central; e Hugo Llorens, cubano-americano expert em terrorismo e embaixador em Honduras). Ou será que realmente coincidem com eles? Esses dois personagens, Negroponte e Llorens, têm sido artífices de todo o processo de golpe em Honduras. Os processos vão esclarecendo que é assim. A tela inicial era que os Estados Unidos não aprovavam o "golpe" em Honduras. Manuel Zelaya mostrava-se mais tendente a "obedecer" a Washington, e Óscar Arias ficava no meio como um negociador desnecessário.

Era evidente que todo esse processo de negociação era uma fachada já ensaiada que no final demonstra que a mão imperial dos EUA estava ali do princípio ao fim. Obama ficou calado; Hillary falou o que não parecia necessário. O golpe de Estado em Honduras continua seu curso. A União Europeia (EU), a ONU e a OEA continuarão acomodando-se nas próximas semanas. Em novembro, acontecerão umas eleições manietadas; Zelaya ficará à margem. E Honduras voltará ao seu esquema de democracia tutelada e protegida. Obama não falará muito mais sobre o assunto.

Conheceremos e confirmaremos uma vez mais o que significam as posturas acomodatícias e ambivalentes que confirmam o poderio imperial dos Estados Unidos. A presença militar tão proeminente dos EUA em Honduras (vivi 17 anos na América Central), confirmará duas posturas evidentes: O império não cede! A verdadeira democracia na América Latina e no Caribe está em iminente perigo de ser detida e obstruída, buscando a recuperação de sua influência imperial na região!

Continuaremos vivendo sob a ameaça de um poder imperial, convencidos de que a busca de uma relação de respeito e igualdade no tratamento para com América Latina e Caribe terá começado de novo a ser erosionado. Barack Obama, provavelmente, nunca saiba o que está acontecendo. Isso é grave para ele e para os/as que desejaríamos que tivesse algum êxito. O poder imperial dos Estados Unidos é mais do que uma presidência; é um monstro, dizia nosso José Martí. Enquanto isso, esperaríamos um giro em Honduras que nos surpreendesse e que demonstrasse a cortesia e a dignidade presentes na tentativa, apesar de tímida, de chegar a processos democráticos. Não sou muito otimista. Uma vez mais, os Estados Unidos dão demonstração do que são capazes para manter seu poderio: recorrer à hipocrisia, à mentira e à extorsão, para continuar imperando. Essa tem sido sua estratégia. Os impérios não mudam tão facilmente.

terça-feira, julho 14, 2009

O golpe morre ou morrem as constituições


Fidel Castro Ruz

Os países da América Latina lutavam contra a pior crise financeira da história dentro duma relativa ordem institucional.

Quando o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de viagem em Moscou para abordar temas vitais em matéria de armas nucleares, declarava que o único presidente constitucional de Honduras era Manuel Zelaya, em Washington a extrema direita e os falcões faziam manobras para que ele negociasse o humilhante perdão pelas ilegalidades que os golpistas lhe atribuem.

Era óbvio que tal ato significaria diante dos seus e diante do mundo o seu desaparecimento do cenário político.

Está provado que quando Zelaya anunciou que regressaria no dia 5 de Julho, estava decidido a cumprir a sua promessa de partilhar com o seu povo a brutal repressão golpista.


Com o Presidente viajavam Miguel d’Escoto, presidente pro tempore da Assembleia Geral da ONU, e Patrícia Rodas, a chanceler de Honduras, bem como um jornalista de Telesul e outros, para um total de 9 pessoas. Zelaya manteve a sua decisão de aterrar. Sei que em pleno voo, quando se aproximava de Tegucigalpa, desde terra lhe informaram a respeito das imagens de Telesur, no instante em que a enorme massa que o esperava no exterior do aeroporto, estava a ser atacada pelos militares com gases lacrimôgenos e fogo de fuzis automáticos.

A sua reação imediata foi pedir altura para denunciar os fatos por Telesul e demandar aos chefes daquela tropa que cessasse a repressão. Depois lhes informou que procederia à aterragem. Então, o alto comando ordenou obstruir a pista. Em apenas uns segundos ficou obstruída por veículos de transporte motorizados.

Três vezes passou o Jet Falcon, a baixa altura, por em cima do aeroporto. Os especialistas explicam que o momento mais tenso e perigoso para os pilotos é quando naves rápidas e de pouco porte, como a que conduzia o Presidente, reduzem a velocidade para fazer contacto com a pista. Por isso acho que foi audaz e valente aquela tentativa de regressar a Honduras.

Se desejavam julgá-lo por supostos delitos constitucionais, por quê não lhe permitiram aterrar?

Zelaya sabe que estava em jogo não só a Constituição de Honduras, mas também o direito dos povos da América Latina a eleger os seus governantes.

Honduras não é hoje apenas um país ocupado pelos golpistas, mas também um país ocupado pelas forças armadas dos Estados Unidos.

A base militar de Soto Cano, também conhecida pelo nome de Palmerola, localizada a menos de 100 quilômetros de Tegucigalpa, reativada em 1981 sob a administração de Ronald Reagan, foi a utilizada pelo coronel Oliver North quando dirigiu a guerra suja contra a Nicarágua, e o Governo dos Estados Unidos dirigiu desde esse ponto os ataques contra os revolucionários salvadorenhos e guatemaltecos, o que custou dezenas de milhares de vidas.

Ali está a "Força de Tarefa Conjunta Bravo" dos Estados Unidos, integrada por elementos das três armas, que ocupa 85 por cento da área da base. Eva Golinger divulga o papel que tem essa base num artigo publicado no sítio digital Rebelião em 2 de Julho de 2009, titulado "A base militar dos Estados Unidos em Honduras no centro do golpe". Ela explica que "a Constituição de Honduras não permite legalmente a presença militar estrangeira no país. Um acordo ‘de mão entre Washington e Honduras autoriza a importante e estratégica presença das centenas de militares estadunidenses na base, por um acordo ‘semi-permanente’. O acordo foi realizado em 1954 como parte da ajuda militar que os Estados Unidos ofereciam a Honduras… o terceiro país mais pobre do hemisfério." Ela acrescenta que "…o acordo que permite a presença militar dos Estados Unidos no país centro-americano pode ser retirado sem aviso".

Soto Cano é igualmente sede da Academia da Aviação de Honduras. Parte dos componentes da força de tarefa militar dos Estados Unidos está integrada por soldados hondurenhos.

Qual é o objetivo da base militar, dos aviões, dos helicópteros e da força de tarefa dos Estados Unidos em Honduras? Sem dúvida que serve unicamente para empregá-la na América Central. A luta contra o narcotráfico não requer dessas armas.

Se o presidente Manuel Zelaya não for reintegrado ao seu cargo, uma onda de golpes de Estado ameaçará com varrer muitos governos da América Latina, ou estes ficarão à mercê dos militares de extrema direita, educados na doutrina de segurança da Escola das Américas, esperta em torturas, na guerra psicológica e no terror. A autoridade de muitos governos civis na América Central e na América do Sul ficaria enfraquecida. Não estão muito distantes aqueles tempos tenebrosos. Os militares golpistas nem sequer emprestariam atenção à administração civil dos Estados Unidos. Pode ser muito negativo para um presidente que, como Barack Obama, deseja melhorar a imagem desse país. O Pentágono obedece formalmente ao poder civil. Ainda as legiões, como em Roma, não assumiram o comando do império.

Não seria compreensível que Zelaya admita agora manobras dilatórias que desgastariam as consideráveis forças sociais que o apóiam e só conduzem a um desgaste irreparável.

O Presidente ilegalmente derrubado não procura o poder, mas defende um princípio, e como disse Martí: "Um princípio justo do fundo de uma caverna pode mais do que um exército".

sexta-feira, julho 10, 2009

A Palavra e a Publicidade







Eduardo Galeano (uruguaio)

Hoje em dia, a publicidade tem a seu cargo o dicionário da linguagem universal. Se ela, a publicidade, fosse Pinóquio, seu nariz daria várias voltas ao mundo.

“Busque a verdade”: a verdade está na cerveja Heineken.

“Você deve apreciar a autenticidade em todas suas formas”: a autenticidade fumega nos cigarros Winston.

Os tênis Converse são solidários e a nova câmara fotográfica da Canon se chama Rebelde: “Para que você mostre do que é capaz”.

No novo universo da computação, a empresa Oracle proclama a revolução: “A revolução está em nosso destino”. A Microsoft convida ao heroísmo: “Podemos ser heróis”. A Apple propõe a liberdade: “Pense diferente”.

Comendo hambúrgueres Burger King, você pode manifestar seu inconformismo: “Às vezes é preciso rasgar as regras”.

Contra a inibição, Kodak, que “fotografa sem limites”.

A resposta está nos cartões de crédito Diner's: “A resposta correta em qualquer idioma”. Os cartões Visa afirmam a personalidade: “Eu posso”.

Os automóveis Rover permitem que “você expresse sua potência”, e a empresa Ford gostaria que “a vida estivesse tão bem feita” quanto seu último modelo.

Não há melhor amiga da natureza do que a empresa petrolífera Shell: “Nossa prioridade é a proteção do meio ambiente”.

Os perfumes Givenchy dão eternidade; os perfumes dão eternidade; os perfumes Dior, evasão; os lenços Hermès, sonhos e lendas.

Que não sabe que a chispa da vida se acende para quem bebe Coca-Cola?

Se você quer saber, fotocópias Xerox, “para compartilhar o conhecimento”.

Contra a dúvida, os desodorantes Gillette: “Para você se sentir seguro de si mesmo”.