quinta-feira, julho 09, 2009

Lula recebe prêmio da Unesco por incentivo à paz

A Unesco (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura) concede ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva o Prêmio pela Paz Félix Houphouët-Boigny.

Lula foi o escolhido "por suas ações em busca da paz, diálogo, democracia, justiça social, igualdade de direitos, assim como por sua contribuição para a erradicação da pobreza e proteção das minorias".

O prêmio, criado em 1989, recebeu o nome de Félix Houphouët-Boigny em homenagem ao primeiro presidente da Costa do Marfim.

Entre os integrantes do júri que elege os premiados estão o ex-presidente de Portugal Mario Soares, o ex-secretário de Estado dos Estados Unidos Henry Kissinger e o argentino Adolfo Pérez Esquivel, vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 1980.

Segundo a Unesco, o prêmio é concedido "a pessoas, organizações e instituições que contribuíram de modo significativo para a promoção, preservação ou manutenção da paz".

Entre os vencedores de outras edições estão Nelson Mandela, Yitzhak Rabin, Shimon Peres, Yasser Arafat, o rei Juan Carlos da Espanha e o ex-presidente dos EUA Jimmy Carter.

quarta-feira, julho 08, 2009

Democracia Radical


Manfredo Araújo de Oliveira - Doutor em Filosofia e professor da UFC. Presidente da Adital


A partir das experiências que já fizemos na modernidade de sociedades coordenadas pelo Mercado e de sociedades coordenadas pelo Estado trata-se hoje antes de tudo de pensar como criar uma sociedade que possa abrir espaços para que se inicie e aprofunde um processo de realização do ser humano como ser livre e solidário nas condições de nosso mundo dito pós-moderno. Há uma nova via em experimentação para a ruptura com a ditadura do capital nas empresas e na sociedade como um todo, buscando viabilizar outro tipo de configuração da vida social, em que a economia possa estar a serviço das necessidades reais das pessoas e da construção de relações integralmente humanas: é a substituição da coordenação pelo Mercado ou pelo Estado pela gestão coletiva dos meios de produção, executada pelos produtores livremente associados. O que aqui está em jogo é uma economia sob controle social, que tem na solidariedade seu valor ético fundamental, isto é, como nos diz Marcos Arruda, uma economia que "estriba a relação entre os sujeitos nos valores da cooperação, da partilha, da reciprocidade, da complementariedade e da solidariedade". Trata-se de um modo de produzir em que o poder é "centrado na sociedade de pessoas que trabalham e criam com autonomia e liberdade" em contraposição às sociedades em que o Mercado ou o Estado dirigem o processo uma vez que nelas as decisões são submetidas ao automatismo do mercado ou à burocracia estatal o que conduz ao esvaziamento da eficácia da democracia política. A primeira consequência básica é a erradicação do regime de segregação social em todas as dimensões da sociedade.

Aqui a idéia fundamental é que os trabalhadores associados podem organizar-se em empresas auto-gestionárias; ou seja, aquelas em que o poder está centrado nas pessoas que trabalham com autonomia e assim desafiar a hegemonia plena das relações capitalistas de produção. Muda-se aqui a própria significação que possui a economia nas sociedades da competição: ela não é mais o fim da vida humana, mas se reduz a um instrumento fundamental para garantir a reprodução material de todos. Para M. Arruda é fundamental, neste processo de reconfiguração da vida coletiva, "a construção de um movimento cooperativista autogestionário, solidário e popular, cuja estratégia seja ir tecendo pouco a pouco os fios de relações cooperativas e solidárias não apenas na esfera do consumo, mas também nas esferas produtiva, comercial e financeira, com vistas a "transubstanciar" a economia do capital numa economia cooperativa e solidária". As relações de cooperação em princípio podem ser estendidas às pessoas, às empresas, às regiões, às nações, à ordem global através de redes de complementariedade a fim de criar "uma civilização de sustentação de toda a vida em consorciação com a natureza e com todos os povos".

Neste contexto, não se propugna nem o fim do Mercado, nem do Estado, mas repensá-los, enquanto formas de relação social, e reconfigurá-los pondo-os a serviço de objetivos sociais e ecológicos e controlá-los pelos cidadãos na medida em que estes se fazem, através das novas instituições, sujeitos da economia e da política.Na esfera da economia, isto significa que os produtores associados regem no nível nacional, regional e mundial, conscientemente seu intercâmbio com a natureza; isto é, o planejamento, a produção e a distribuição de bens, e submetem este processo a um controle social, ao invés de serem dominados por uma lógica que se impõe a eles. Os direitos devem constituir as regras que enquadrem o Estado e o Mercado nos objetivos novos o que deve conduzir à construção de um novo paradigma de configuração da vida social em última instância em nível mundial. O mérito destas experiências está, em primeiro lugar, em ensaiar este mundo de instituições novas, através de que se faz possível implementar esta forma alternativa de organizar a vida coletiva.

segunda-feira, julho 06, 2009

Un gesto que no se olvidará


Fidel Castro Ruz
Hago un alto en el trabajo que estaba elaborando desde hace dos semanas sobre un episodio histórico, para solidarizarme con el presidente constitucional de Honduras, José Manuel Zelaya.

Fue impresionante verlo a través de Telesur, arengando al pueblo de Honduras. Denunciaba enérgicamente la burda negativa reaccionaria de impedir una importante consulta popular. Esa es la "democracia" que defiende el imperialismo.

Zelaya no ha cometido la menor violación de la ley. No realizó un acto de fuerza. Es el Presidente y Comandante General de las Fuerzas Armadas de Honduras. Lo que allí ocurra será una prueba para la OEA y para la actual administración de Estados Unidos.

Ayer tuvo lugar una reunión del ALBA en Maracay, en el Estado venezolano de Aragua. Los líderes latinoamericanos y caribeños que allí hablaron, brillaron tanto por su elocuencia como por su dignidad.

Hoy escuchaba los sólidos argumentos del presidente Hugo Chávez denunciando la acción golpista a través de Venezolana de Televisión.

Ignoramos qué ocurrirá esta noche o mañana en Honduras, pero la conducta valiente de Zelaya pasará a la historia.

Sus palabras nos hacían recordar el discurso del presidente Salvador Allende mientras los aviones de guerra bombardeaban el Palacio Presidencial, donde murió heroicamente el 11 de Septiembre de 1973. Esta vez veíamos a otro Presidente latinoamericano entrando con el pueblo en una base aérea para reclamar las boletas para una consulta popular, confiscadas espuriamente.

Así actúa un Presidente y Comandante General.

¡El pueblo de Honduras jamás olvidará ese gesto!

sábado, julho 04, 2009

O artista







Oscar Wilde

Uma noite nasceu-lhe na alma o desejo de esculpir a estátua do Prazer que dura um instante e saiu pelo mundo em busca do bronze, porque só podia imaginar sua obra em bronze.
Mas todo o bronze do mundo tinha desaparecido e em nenhuma parte da terra podia encontrar-se bronze algum, exceto o da estátua da Dor que dura a vida inteira.
Ora, precisamente fôra ele mesmo quem, com suas próprias mãos, havia modelado aquela estátua, colocando-a no túmulo do único ser a quem amou em sua vida. Erguera, pois, no túmulo da criatura morta a quem tanto amara aquela estátua que era criação sua, para que fosse um sinal do amor do homem, que é imortal, e um símbolo da dor humana, que dura para sempre.
E no mundo inteiro não havia outro bronze senão o bronze daquela estátua.
E tomou a estátua que havia modelado, colocou-a em um grande forno e entregou-a ao fogo.
E com o bronze da estátua da Dor que dura a vida inteira modelou uma estátua do Prazer que dura um instante.

sexta-feira, julho 03, 2009

Para entender o golpe em Honduras








Elaine Tavares

De repente, um pequeno país da América Central, cuja capital poucos conseguem pronunciar o nome, Tegucigalpa, virou notícia mundial. Uma velha e conhecida história ali se repetia, quando mais ninguém acreditava que isso pudesse ser possível. Um golpe de estado contra um presidente que não é nenhum revolucionário de esquerda, pelo contrário, é um bem comportado político do partido liberal. O motivo do golpe é pueril: a decisão do presidente de fazer uma consulta popular sobre a possibilidade de uma Constituinte. Em Honduras, ouvir o povo é considerado um ato de lesa pátria. Nada poderia ser mais anacrônico nestes tempos de participação protagônica das gentes.

A história

Honduras é um pequeno país da América Central cuja história é muito peculiar. Primeiro, porque foi o berço de uma das mais incríveis civilizações desta parte do mundo: os maias. E segundo, porque durante as guerras de independência que tomaram conta da América espanhola, foi ali que se criou a República Federal das Províncias Unidas da América Central, um ensaio da pátria grande, tão sonhada por Bolívar. Os maias foram dizimados e a proposta de federação não resistiu ao sonhos de grandeza de alguns e, em 1838, a região da América Central também balcanizou. Honduras virou um estado independente e acabou entrando no diapasão das demais repúblicas da região: dominada por caudilhos e fiel serviçal das grandes potências da época, tais como a Inglaterra, a Alemanha e a nascente nação dos Estados Unidos.

As ligações perigosas

Como era comum naqueles dias, a elite governante se digladiava entre liberais e conservadores. Com o fim da idéia de federação e a morte do liberal Francisco Morazón, considerado o mártir de Tegucigalpa, que morreu em 1842 ainda lutando pela unificação da América Central, os conservadores assumiram o comando e o país virou prisioneiros da dívida externa, conforme conta o historiador James Cockcroft, no livro América Latina e Estados Unidos. Os liberais só voltaram ao poder no final do século XIX, mas já totalmente catequizados para viverem de maneira dependente dos países centrais. No início do século XX chegaram as bananeiras estadunidenses e com elas o processo de super-exploração. A United Fruit Company, a Standart Fruit e a Zemurray´s Cuyamel Fruit passaram a comandar os destinos das gentes. E quando estas tentaram se rebelar, foi a marinha estadunidense quem desembarcou no país para reprimir as mobilizações. Honduras virou, desde então, um país ocupado. Os camponeses trabalhavam nas piores condições e as bananeiras ditavam as leis, financiando os dois partidos políticos locais.

Nos anos 30, quando uma grande depressão agitou o país, o governante de plantão, General Carías, submeteu o país, com a ajuda armada estadunidense, a 16 anos de lei marcial. E, como é comum, quando ficou obsoleto, foi retirado do poder por um golpe.

Em 1950, depois da segunda guerra, as bananeiras exigiram mudanças e o Banco Mundial foi chamado para promover a "modernização" de Honduras. Gigantescas greves de trabalhadores - como a dos plantadores de banana que parou o país por 69 dias - e de estudantes foram reprimidas em nome do desenvolvimento. E tudo o que eles queriam era o direito de ter um sindicato. Havia eleições mas, na verdade, com uma elite claudicante eram os militares quem davam as cartas e foram eles, apavorados com os avanços dos trabalhadores, que assinaram um acordo com os Estados Unidos para que este país pudesse ter bases militares no território hondurenho.

O medo de mais revoltas populares fez com que o governo realizasse uma espécie de reforma agrária nos anos 60 e 70 que acabou freando as mobilizações no campo, embora o benefício não tenha chegado a um décimo dos camponeses. Ao longo dos anos 70 os escândalos envolvendo generais no governo e as bananeiras se sucederam, causando mais mobilização nas cidades e nos campos, onde os trabalhadores já se organizavam de modo mais sistemático. Mas, os anos 80 trarão uma nova ocupação estadunidense que acabou subordinando a vida das gentes outra vez.

Os sandinistas e os EUA

Os anos 80 são tempos de guerra fria. Os Estados Unidos insistem na luta contra Cuba e também contra a Nicarágua que busca sua autonomia através da revolução sandinista. E, assim, com o mesmo velho discurso de combater o comunismo, Jimmy Carter manda para Honduras os seus "boinas verdes", para ajudar na defesa das fronteiras, uma vez que o país faz limite com a Nicarágua. Além disso, os EUA abocanham mais de três milhões de dólares pela venda de armas e aluguel de helicópteros. Na verdade, lucram e ainda usam o exército hondurenho para realizar numerosas matanças de refugiados salvadorenhos e nicaraguenses. É ali, em Honduras, que, com o apoio da CIA, se leva a cabo o treinamento dos contras que, por anos, assolaram a revolução sandinista e o próprio governo revolucionário. Era o tempo em que um batalhão especial liderado por um general hondurenho anti-comunista, promoveu massacres contra lideranças da esquerda de toda a região.. E assim, durante toda a década, apesar dos escândalos políticos e mudanças de mando, a "ajuda" estadunidense aos generais de plantão sempre se manteve impávida com milhões de dólares sendo investidos nos acampamentos dos contras, que somavam mais de 15 mil soldados.

Nos anos 90, a situação em Honduras era tão crítica que até a conservadora igreja católica passou a apoiar os militantes dos direitos humanos que denunciavam estar o país a beira de uma guerra. A derrota dos sandinistas na Nicarágua refreou os ânimos, mas ainda assim, seguiram as denúncias de assassinatos e violações.. No final da década, os governos neoliberais já haviam destruído as cooperativas de trabalhadores e devolvido terras às companhias estadunidenses. Nada mudava no país.

Zelaya

Manuel Zelaya foi eleito presidente em 2005, pelo Partido Liberal, mas esteve em cargos importantes durantes os últimos governos. Era, portanto, um homem do sistema. Seus problemas com os Estados Unidos começaram em 2006, quando decidiu reduzir o custo do petróleo, passando a discutir com Hugo Chávez, da Venezuela, a possibilidade de negócios conjuntos, o que acabou culminando, em janeiro de 2008, com a entrada de Honduras na órbita da Petrocaribe, um acordo de cooperação energética que busca resolver as assimetrias no acesso aos recursos energéticos. Este acordo incluiu Honduras na lógica da ALBA, a Alternativa Bolivariana para as Américas, projeto de Chávez em contraposição à ALCA, que tentava se impor a partir dos Estados Unidos. A proposta de Chávez foi a de vender o petróleo a Honduras, com pagamento de apenas 50%, sendo a outra metade paga em 25 anos, com um juro pífio, permitindo assim que Honduras investisse em áreas sociais. O plano, apesar de bom para o país, foi duramente criticado pela classe política. E os Estados Unidos perderam um parceiro de TLC (os mal fadados acordos de livre comércio), o que provocou tremendo mal estar em Washington.

Assim, quando o presidente Zelaya decidiu fazer um plebiscito, consultando a população sobre a possibilidade de uma Assembléia Nacional Constituinte, e não apenas de uma mudança para um novo mandato como dizem alguns veículos de informação, o mundo veio abaixo. Entre os direitistas de plantão e amigos da política estadunidense, isso era influência de Chávez. O próprio partido Liberal reagiu contra a medida, considerada "progressista" demais. Afinal, uma nova Constituinte colocaria o país num rumo bastante diferente do que vinha sendo trilhado nas últimas décadas. Mesmo assim o presidente levou adiante a proposta de ouvir a população e acabou exonerando o chefe do Estado Maior, general Romeo Vásquez Velásquez, quando este se recusou a distribuir as cédulas para a votação. A Corte Suprema votou contra a consulta popular e exigiu que o presidente reconduzisse o general ao seu posto, o que foi negado. Por conta disso, no dia da votação, domingo, dia 28, os militares prenderam Zelaya, o sequestraram e o levaram para Costa Rica, coincidentemente seguindo os mesmos trâmites do golpe perpetrado contra Chávez em 2001. O Congresso hondurenho chegou a discutir até a sanidade mental do presidente e, no dia do golpe, se prestou a ler uma fictícia carta de renúncia, imediatamente desmentida pelo próprio presidente desterrado. Ainda assim, o Congresso decidiu instituir o presidente da casa, Roberto Micheletti, como presidente da nação. Este, nega que esteja assumindo num momento de golpe. "Foi perfeitamente legal a ação do Congresso", dizia, e, enquanto isso, mandava suspender os sinais de televisão e os telefones.

Reação Popular

Agora estão jogados os dados. O presidente Zelaya disse que volta a Honduras e vai acompanhado de presidentes de nações livres e amigas, tais como Equador e Argentina. O mundo inteiro repudiou o golpe e nenhum país reconheceu o governo golpista. A população deflagrou greve geral no país e, aos poucos, as grandes cidades estão parando. A proposta de Zelaya é reassumir e terminar o seu mandato. Não se sabe se ele vai insistir na consulta popular para uma nova Constituição, tudo vai depender da correlação de forças. Se a sua volta se der a partir da mobilização popular, haverá condições objetivas de apresentar esta proposta aos hondurenhos, além de purgar toda a camarilha que buscou reavivar um passado que as gentes de Honduras não querem mais. Há rumores de que políticos da direita estejam alinhavando um acordo, permitindo a volta do presidente, mas exigindo que ninguém seja punido. Se assim for, a volta será derrota.

O cenário mais provável é que, configurado o apoio popular e também o apoio da comunidade internacional, o presidente Zelaya coloque para correr os golpistas e inaugure um novo tempo em Honduras. Caso seja assim, enfraquece o domínio dos Estados Unidos na região e cresce o fortalecimento da Aliança Bolivariana dos Povos de Nuestra América.

O direito de espernear

Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.

Diante dos êxitos inegáveis do governo, a oposição se perde entre a perplexidade e a inveja. Conforme costuma dizer Delfim Netto, com autoridade, os economistas que dominaram o governo anterior não podem aceitar que o bom senso de um metalúrgico revele-se muito mais eficiente do que as teorias acadêmicas. A diferença está no trabalho desenvolvido pelo governo, sobretudo pelo seu titular. Lula atua em duas frentes. Na frente interna, tenta reparar injustiças seculares para com os trabalhadores.

Na externa, insere o Brasil entre os atores internacionais, abre mercados, influi no processo político global. Não é um extremista, mas tampouco um conformista. Talvez funcione, em sua forma de ver o mundo, a constatação dos velhos comunistas de que os trabalhadores lutam para construir a própria família com dignidade e fazer com que seus filhos vivam um pouco melhor do que eles mesmos.

O país caminha sem grandes saltos, mas com firmeza. O governo conseguiu zerar a dívida externa e reduziu consideravelmente a dívida pública interna. Graças a isso, consegue impedir que a crise internacional assuma, entre nós, o caráter gravíssimo que ocorre em outros países. Uma das causas desse desempenho é, sem dúvida, a distribuição –precária ainda – compulsória de renda. O aumento de consumo de bens industriais duráveis, favorecido pela atenção oficial aos pobres, permitiu que a indústria mantivesse o nível de emprego nos anos anteriores, e, assim, que a economia permanecesse mais ou menos estável.

É certo que os níveis de desemprego cresceram, mas não com os índices dramáticos que muitos calculavam.
Seria de esperar que todas as forças políticas brasileiras atuassem em busca do entendimento, a fim de que pudéssemos vencer todas as dificuldades econômicas sem crises políticas internas. Mas não é o que ocorre. A oposição, salvo a exceção de alguns mais lúcidos, aposta no “quanto pior, melhor”. Não há prova maior disso do que a CPI do Senado para investigar a Petrobras. Em primeiro lugar, não obstante homens honrados que o compõem, o Senado não tem, neste momento, autoridade moral e política alguma para investigar o que quer que seja.

Os escândalos surgidos ali recentemente põem a instituição sob suspeita diante da opinião pública. E o propósito da oposição não é averiguar possíveis erros da grande empresa. Querem é tentar a desestabilização do governo e – ainda pior – enfraquecer a grande empresa, no momento em que busca os capitais necessários para a exploração imediata dos depósitos petrolíferos sob a camada de pré-sal.

A oposição que está aí é herdeira e sucessora da UDN, que, sob o comando de Carlos Lacerda, e a serviço das grandes empresas petrolíferas norte-americanas, procurou impedir a criação da Petrobras durante o governo de Vargas e, em seguida, no período de sua consolidação pelo presidente Juscelino Kubitschek, continuou na tentativa de desestabilização do governo.

Não é relevante para esse grupo de senadores e deputados o interesse nacional – e o interesse nacional exige a preservação da Petrobras, que vem investindo pesadamente na exploração do petróleo do profundo subsolo marinho, o que nos tornará um dos maiores produtores do mundo. O que lhes interessa é apenas tumultuar o processo sucessório, com a esperança de que venham a ocupar o Planalto e, no Planalto, impedir a realização plena do povo brasileiro e a conquista definitiva da soberania nacional.

É o direito que têm de espernear. Durante quase toda a História – com exceção de dois ou três períodos da República, em que houve resistência contra a injustiça, as oligarquias têm explorado impunemente o povo brasileiro e usado dos recursos do Tesouro para o enriquecimento de famílias de nome sonoro e caráter discutível. Como, desta vez, os trabalhadores conhecem melhor os seus direitos e a população rural já não obedece ao cabresto dos senhores de engenho e dos latifundiários, os oposicionistas se desesperam.

quinta-feira, julho 02, 2009

O golpe militar em Honduras visto da Costa Rica


Reflexões de Juan Stam

O conflito hondurenho nessas semanas tem sido bastante complexo; porém uma coisa me parece indiscutível: o sequestro do presidente Zelaya e de numerosas pessoas foi uma atrocidade que todos/as devemos repudiar.

Na conferência de imprensa realizada no aeroporto de San José, por ocasião da chegada de Zelaya a Costa Rica, Óscar Arias denunciou sem meias palavras o golpe militar e deu seu apoio a Zelaya como presidente legítimo de seu país. Uma lista longa de outros governos condenou também o golpe. Esperemos que respaldem suas palavras com ações concretas de apoio à democracia hondurenha.

Honduras tem uma curiosa legislação para plebiscitos, que quase deixa sem força a consulta popular; porém, até onde eu saiba, não existe nenhuma lei que proíba uma consulta popular não vinculante. No entanto, o projeto de Zelaya está sendo rotulado de ilegal, apesar de ter sido respaldado por milhares de assinaturas. Parece que foi considerado ilegal somente porque diversos setores do governo decidiram declará-lo ilegal. Porém, por que fizeram isso? Existem provas realmente válidas da ilegalidade da consulta? Além disso, por que têm tanto medo a uma consulta popular? Por outro lado, por que Zelaya teve que recorrer a esta medida para que a voz do povo fosse escutada, mesmo quando fosse uma voz contra a proposta de uma Assembleia Constituinte? Por que tanto medo ao povo?

Honduras e Costa Rica são dois países muito distintos; porém, têm um problema em comum: em ambos países uma oligarquia poderosa controla tudo. Isso me ajuda a entender o dilema que incomodava Zelaya. Na Costa Rica, a oligarquia maneja absolutamente todos os centros de poder: a casa presidencial, a Assembleia Legislativa, a sala constitucional (Corte Suprema) e os demais tribunais, o Tribunal Supremo Eleitoral, a polícia (bastante militarizada e repressiva), a economia e os meios de comunicação. Sem exceção, todas as esferas de poder estão sujeitas aos mesmos magnatas! Nesse sentido, Costa Rica poderia chamar-se uma sociedade totalitária. Por isso, é imensamente frustrante ser oposição em Costa Rica e somente devido a uma incrível tenacidade continuam lutando pela justiça e pelo bem das maiorias, sem recorrer às armas.

É óbvio que Zelaya estava na mesma situação e ainda pior. Teve que romper o círculo vicioso do poder tradicionalista e, de alguma maneira, levar o conflito ao povo. Por isso, recorreu ao projeto pouco usual de uma consulta não vinculante sobre uma possível Assembleia Constituinte não controlada (tomara!) pela oligarquia de sempre. Não foi um problema constitucional ou legal, mas uma questão de poder.

Em todas as "democracias" que conheço, o poder acima de todos os poderes, e muito acima do poder do povo, é o do "poderoso cavalheiro, dom dinheiro". Esse fatal vício começa com os processos eleitorais, tão dependentes da propaganda paga. Na Costa Rica, o partido Liberación Nacional, da elite neoliberal, costuma gastar de dez a vinte vezes mais do que o segundo partido mais influente. É uma desigualdade gigantesca, de tigre solto contra burro amarrado. Os que podem comprar quantidades excessivas de espaços pagos na televisão e na imprensa e contratar os melhores expertos em propaganda e fabricação de imagens, gozam, por ser ricos, de uma vantagem que é grosseiramente injusta. Jamais poderá existir justiça em nenhum país sob estas circunstâncias, e a "democracia" não será mais do que um engano e um cruel eufemismo.

Além disso, aqueles meios massivos, que tanto lucram com nossa democracia, dedicam-se sistematicamente a enganar-nos. Poucas vezes se dedicam realmente a informar ao público. São grandes empresas muito lucrativas que tendem a favorecer os interesses de sues donos e de sua classe social. Raras vezes são equilibrados, dando igual cobertura aos diferentes lados de problemas controversos. Além disso, no caso da Costa Rica, praticamente não existem meios de comunicação de oposição. Então, é fácil fazer lavagem cerebral. Gastam fortunas em dizer-nos o que devemos pensar e depois fazem consultas para medir até onde alcançaram seus objetivos.

Graças a esses meios massivos, somente dizer "Chávez" é evocar demônios; porém, dizer "Álvaro Uribe" nos leva a ‘tirar o chapéu’ e saudar a um democrata exemplar. Na Venezuela, em uma vil operação muito parecida a de Honduras hoje, esses meios conseguiram "destituir" o presidente legalmente eleito, apesar de que somente por 24 horas. No entanto, continuam em sua campanha de propaganda venenosamente manipulada e tendenciosa. Por tudo isso, para ser cristão, fiel hoje, um primeiro passo é duvidar sistematicamente de tudo o que os meios de comunicação nos dizem.

Zelaya é acusado de aspirar a um segundo período presidencial. Nos Estados Unidos isso é normal. Óscar Arias e Álvaro Uribe estão cada qual em seu segundo mandato, sem nem sequer ter emendado suas constituições. Isso é democracia? Isso é respeito à legalidade e à institucionalidade? Zelaya, pelo contrário, respeita a lei e propõe uma consulta popular sobre uma possível Assembleia Constitucional. Se o povo não a quer, não haverá. E se houver; porém, o povo não quer que Zelaya continue, simplesmente não votarão nele.

A democracia não é um atributo ontológico ou algo que se possui; mas uma tarefa e um desafio. Na América Latina os processos saudáveis por mais democracia que estão acontecendo assustam as oligarquias. Em Honduras, Zelaya é parte desse processo. Tomara que possa terminar seu período legítimo. Tomara que aconteça a Assembleia Constitucional. O pior para Honduras seria voltar a um governo controlado pela elite soldadesca que tantos delitos cometeu no passado.

Escrevo isso no dia do golpe, com dor e paixão. Agradecerei sinceramente as opiniões dos demais, a partir de outras experiências e de outros pontos de vista.

quarta-feira, julho 01, 2009

OEA ratifica apoio ao retorno de Zelaya





O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, anunciou hoje (1º) que voltará ao país no próximo sábado. Expulso de Honduras no último domingo, Zelaya adiou seu regresso - inicialmente previsto para amanhã - depois que a Organização dos Estados Americanos (OEA) estabeleceu um prazo de 72 horas para a restituição de seu governo.

O chanceler argentino, Jorge Taiana, sugeriu ontem que a OEA suspenda Honduras da entidade caso o governo do presidente Manuel Zelaya não seja restituído em 72 horas. O pedido foi feito durante uma sessão extraordinária da Assembleia Geral da OEA, em Washington, onde os países-membros avaliaram o golpe de estado em Honduras.

A suspensão contra Honduras se baseia no artigo 21 da Carta Democrática Interamericana. O texto prevê que a Assembleia Geral da OEA poderá suspender um estado-membro caso considere que houve quebra da ordem democrática no país. Se votada em sessão extraordinária, a medida contra Honduras terá que obter dois terços dos votos para ser aprovada.

Mesmo suspenso, a OEA exige que o país continue observando o cumprimento de suas obrigações como membro da Organização, principalmente com relação aos direitos humanos. O artigo 21 garante que, "adotada a decisão de suspender a um governo, a Organização manterá suas gestões diplomáticas para o restabelecimento da democracia no Estado-membro afetado".

Durante seu pronunciamento na Assembleia Geral, Zelaya agradeceu ao apoio dos estados-membros e lembrou que essa é a primeira vez que a OEA reage com tanta firmeza. "O povo de Honduras se sente acompanhado pelos povos do mundo graças a vocês. A América se sente reconfortada por vocês", expressou Zelaya, como mostra notícia da Telesul.

O presidente deposto considerou o golpe de estado que sofreu como "um retrocesso para as Américas". Zelaya pediu à OEA que não deixe impune o ato impetrado contra ele. "Eu sei perdoar, sou tolerante, pratico a não violência, mas os povos não perdoam e a história condena", disse o presidente hondurenho.

A Assembleia Geral da OEA nomeou o secretário-geral da organização, José Miguel Insulza, como responsável por acompanhar Zelaya no retorno ao país. Insulza vai administrar ações que ajudem a restaurar a democracia hondurenha.

"Não queremos suspender ao querido povo da Honduras, mas sim aos usurpadores quem tem envergonhado a seu próprio país e quem negaram ao povo gozar do direito a viver em democracia", esclareceu Insulza, como noticia a venezuelana ABN (Agência Bolivariana de Noticias).

Segundo a ABN, Insulza reiterou que a OEA não pensa em aceitar nenhuma ação "que não surja dos efeitos que procuramos: o retorno Manuel Zelaya". O presidente deposto deve viajar hoje para o Panamá, mas não confirmou onde ficará até sábado, quando deverá regressar a Honduras.

O anagrama







Carlos Henrique de Pontes Vieira

A tradição hindu dizia
que a palavra tem energia
contestar isso eu não ouso
quando os olhos na tela pouso

todas as letras eu misturo
da expressão “quarto poder”
tomo susto, lhe asseguro,
e limpo os olhos para ler

coincide com o mau momento
da imprensa com o leitor
que guarda dela o sentimento
expresso no computador

tremo diante da conclusão
da palavra jogada aos ventos
que do leitor capta a impressão
e arranja os termos fedorentos

assim a imprensa que se chama
orgulhosa, “quarto poder”,
quando vejo o anagrama:
“rato qu podre” é o que se lê.

terça-feira, junho 30, 2009

Fidel: golpistas de Honduras não têm salvação

Em artigo publicado na noite de domingo, o líder cubano Fidel Castro criticou a deposição do presidente de Honduras e defendeu que não se negocie com os golpistas. "Com esse alto comando golpista não se pode negociar, é necessário exigir a sua renúncia e que outros oficiais mais jovens e não comprometidos com a oligarquia ocupem o comando militar, ou não haverá jamais um governo do povo, pelo povo e para o povo em Honduras. Os golpistas, encurralados e isolados, não têm salvação possível se o problema for encarado com firmeza", diz Fidel.

Honduras






Honduras

A vós que hasteais
da liberdade, a bandeira:
o golpe, jamais !

O ardil das elites

É o poder armado
salvar a democracia
com golpe de Estado.

Traidores

Vive a burguesia
a perpetrar contra o povo
golpe e felonia.

Governo do povo, para o povo e pelo povo.

Há demagogia?
Não, há verdade e certeza
de democracia.

Constituição

Máquina de guerra
do povo que a possui e
que a elite enterra

Elite

Como um abutre
é do que há de mais podre
que ela se nutre

Carlos Henrique de Pontes Vieira

segunda-feira, junho 29, 2009

Comunidade internacional condena golpistas

Governo brasileiro condenou de forma veemente ação militar que resultou na deposição do presidente eleito de Honduras, José Manuel Zelaya, e sua condução para fora do país. Organização dos Estados Americanos e União Européia também condenaram o golpe. Embaixador norte-americano em Honduras diz que o único presidente que os EUA reconhecem em Honduras é o presidente Manuel Zelaya. Hugo Chávez e Evo Morales defendem mobilização da comunidade internacional e de movimentos sociais contra golpe.

O governo brasileiro condenou hoje o golpe militar em Honduras. O Ministério das Relações Exteriores divulgou nota oficial informando que o Brasil condena de forma veemente o seqüestro do presidente Manuel Zelaya e sua deposição pelos militares. “O governo brasileiro condena de forma veemente a ação militar que resultou na retirada do presidente de Honduras, José Manuel Zelaya, do Palácio Presidencial em Tegucigalpa no dia de hoje e sua condução para fora do país”, afirma a nota. Para o governo brasileiro, ações militares como a de hoje em Honduras atentam contra a democracia e não condizem com o estágio de desenvolvimento político da América Latina. “Eventuais questões de ordem constitucional devem ser resolvidas de forma pacífica, pelo diálogo e no marco da institucionalidade democrática”, diz ainda o Itamaraty.
O governo brasileiro solidarizou-se com o povo hondurenho e pediu que o presidente Zelaya seja imediata e incondicionalmente reposto em suas funções. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, também condenou o golpe e pediu que os hondurenhos se comprometam a resolver de forma pacífica suas diferenças. Em nota oficial, o secretário manifestou firme apoio às instituições democráticas e condenou a detenção do presidente constitucional do país. Além disso, pediu a restituição dos representantes democraticamente eleitos no país e o pleno respeito aos direitos humanos, incluindo garantias de segurança para o presidente Zelaya, os membros de sua família e do governo. A União Européia também manifestou-se condenando o golpe militar e pedindo a imediata libertação do presidente do país.
A Organização dos Estados Americanos (OEA) aprovou neste domingo, por aclamação, uma resolução de sete pontos que condena "energicamente" o golpe militar. O Conselho Permanente da entidade aprovou a resolução que, entre outros elementos, condena o golpe militar, exige o retorno de Zelaya ao poder e programa uma sessão extraordinária da Assembleia Geral da OEA para terça-feira com o objetivo de estudar os próximos passos. Os governos da Bolívia e da Venezuela também rejeitaram energicamente o golpe militar. O presidente venezuelano Hugo Chávez, chamou o movimento de “golpe troglodita” e pediu ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, condene abertamente a deposição do presidente hondurenho. Evo Morales conclamou a comunidade internacional e os movimentos sociais a condenarem essa “aventura anti-democrática”.
O presidente dos EUA, Barack Obama, afirmou por sua vez que as disputas internas de Honduras devem ser resolvidas de forma pacífica. "Quaisquer tensões e disputas existentes devem ser resolvidas pacificamente e através do diálogo, livre de qualquer interferência externa", declarou Obama. A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, apelou para que todos os partidos em Honduras respeitem as Constituições e as leis desse país. Já o embaixador norte-americano em Tegucigalpa, Hugo Llorens, afirmou que "o único presidente que os EUA reconhecem em Honduras é o presidente Manuel Zelaya". Diplomatas norte-americanos já estariam trabalhando para assegurar a segurança do presidente deposto e de sua família, a restauração da ordem constitucional e a volta de Zelaya à presidência do país.

domingo, junho 28, 2009

Difícil arte de ser mulher



Frei Betto

Hours concours em Cannes, um dos filmes de maior sucesso no badalado festival francês foi "Ágora", direção de Alejandro Amenabar. A estrela é a inglesa Rachel Weiz, premiada com o Oscar 2006 de melhor atriz coadjuvante em "O jardineiro fiel", dirigido por Fernando Meirelles.

Em "Ágora" ela interpreta Hipácia, única mulher da Antiguidade a se destacar como cientista. Astrônoma, física, matemática e filósofa, Hipácia nasceu em 370, em Alexandria. Foi a última grande cientista de renome a trabalhar na lendária biblioteca daquela cidade egípcia. Na Academia de Atenas ocupou, aos 30 anos, a cadeira de Plotino. Escreveu tratados sobre Euclides e Ptolomeu, desenvolveu um mapa de corpos celestes e teria inventado novos modelos de astrolábio, planisfério e hidrômetro.

Neoplatônica, Hipácia defendia a liberdade de religião e de pensamento. Acreditava que o Universo era regido por leis matemáticas. Tais ideias suscitaram a ira de fundamentalistas cristãos que, em plena decadência do Império Romano, lutavam por conquistar a hegemonia cultural.

Em 415, instigados por Cirilo, bispo de Alexandria, fanáticos arrastaram Hipácia a uma igreja, esfolaram-na com cacos de cerâmica e conchas e, após assassiná-la, atiraram o corpo a uma fogueira. Sua morte selou, por mil anos, a estagnação da matemática ocidental. Cirilo foi canonizado por Roma.

O filme de Amenabar é pertinente nesse momento em que o fanatismo religioso se revigora mundo afora. Contudo, toca também outro tema mais profundo: a opressão contra a mulher. Hoje, ela se manifesta por recursos tão sofisticados que chegam a convencer as próprias mulheres de que esse é o caminho certo da libertação feminina.

Na sociedade capitalista, onde o lucro impera acima de todos os valores, o padrão machista de cultura associa erotismo e mercadoria. A isca é a imagem estereotipada da mulher. Sua autoestima é deslocada para o sentir-se desejada; seu corpo é violentamente modelado segundo padrões consumistas de beleza; seus atributos físicos se tornam onipresentes.

Onde há oferta de produtos - TV, internet, outdoor, revista, jornal, folheto, cartaz afixado em veículos, e o merchandising embutido em telenovelas - o que se vê é uma profusão de seios, nádegas, lábios, coxas etc. É o açougue virtual. Hipácia é castrada em sua inteligência, em seus talentos e valores subjetivos, e agora dilacerada pelas conveniências do mercado. É sutilmente esfolada na ânsia de atingir a perfeição.

Segundo a ironia da Ciranda da bailarina, de Edu Lobo e Chico Buarque, "Procurando bem / todo mundo tem pereba / marca de bexiga ou vacina / e tem piriri, tem lombriga, tem ameba / só a bailarina que não tem". Se tiver, será execrada pelos padrões machistas por ser gorda, velha, sem atributos físicos que a tornem desejável.

Se abre a boca, deve falar de emoções, nunca de valores; de fantasias, e não de realidade; da vida privada e não da pública (política). E aceitar ser lisonjeiramente reduzida à irracionalidade analógica: "gata", "vaca", "avião", "melancia" etc.

Para evitar ser execrada, agora Hipácia deve controlar o peso à custa de enormes sacrifícios (quem dera destinasse aos famintos o que deixa de ingerir...), mudar o vestuário o mais frequentemente possível, submeter-se à cirurgia plástica por mera questão de vaidade (e pensar que este ramo da medicina foi criado para corrigir anomalias físicas e não para dedicar-se a caprichos estéticos).

Toda mulher sabe: melhor que ser atraente, é ser amada. Mas o amor é um valor anticapitalista. Supõe solidariedade e não competitividade; partilha e não acúmulo; doação e não possessão. E o machismo impregnado nessa cultura voltada ao consumismo teme a alteridade feminina. Melhor fomentar a mulher-objeto (de consumo).

Na guerra dos sexos, historicamente é o homem quem dita o lugar da mulher. Ele tem a posse dos bens (patrimônio); a ela cabe o cuidado da casa (matrimônio). E, é claro, ela é incluída entre os bens... Vide o tradicional costume de, no casamento, incluir o sobrenome do marido ao nome da mulher.

No Brasil colonial, dizia-se que à mulher do senhor de escravos era permitido sair de casa apenas três vezes: para ser batizada, casada e enterrada... Ainda hoje, a Hipácia interessada em matemática e filosofia é, no mínimo, uma ameaça aos homens que não querem compartir, e sim dominar. Eles são repletos de vontades e parcos de inteligência, ainda que cultos.

Se o atrativo é o que se vê, por que o espanto ao saber que a média atual de durabilidade conjugal no Brasil é de sete anos? Como exigir que homens se interessem por mulheres que carecem de atributos físicos ou quando estes são vencidos pela idade?

Pena que ainda não inventaram botox para a alma. E nem cirurgia plástica para a subjetividade.

Golpe de Estado em Honduras







Manuel Zelaya

Militares hondurenhos sequestram Zelaya
Tegucigalpa, 28 junho (ABN)

Os militares detiveram, este domingo, o presidente de Honduras, Manuel Zelaya, que estaria sequestrado na base aérea, informou seu secretário privado, Enrique Reina, aos meios locais. “Militares levaram o presidente de sua casa para a força aérea. Estamos fazendo a denuncia internacional”, disse o secretário. Segundo uma testemunha entrevistada por Radiocadena Voces, quatro comandos de uns 200 soldados chegaram à residência do presidente às 6H (12H00 GMT), informou a AFP.

Os militares realizaram quatro disparos e depois sairam em três veículos rumo a base aérea.

Sua residência privada estava rodeada por dezenas de militares fortemente armados, confirmou um fotógrafo da AFP.

As retransmissões do canal 8 de televisão, governamental, sairão do ar. Momentos antes, o apresentador de noticias anunciou: “Parece que os militares vem até aquí”.

Segundos antes, chegou a pedir à população para se concentrar na praça da Liberdade.

Este domingo ia se levar a cabo uma pesquisa nas urnas, não vinculante, para realizar uma Reforma Constitucional.

sexta-feira, junho 26, 2009

Hai-Kai III







Carlos Henrique de Pontes Vieira

Michael Jackson

Artista completo
não era importante que
fosse branco ou preto
Erroll Garner (grande pianista de jazz)

Mágico da tecla
há longos anos o sigo
como humilde assecla
Disparate chileno

O algoz se apropria
da ideia de quem morreu
porque a defendia
Timoneiro

Em meio à procela
do apartheid, ecoa a voz
do líder Mandela.

Judeus e Palestinos

A dor esquecida
de seu próprio holocausto é
no outro imprimida.

Maior coerência

Do homem que é justo
é que se espera ser sábio,
não porque é vetusto.

Incompatibilidades

Ser pobre e culto
para a burguesa fútil
não condiz, é insulto.

Travesti

Tu, se o espancas,
temes desejar seu falo
mais que as suas ancas.

Eichmann (torturador nazista)

Bom pai e irmão
foi um covarde abjeto
e torpe malsão

Esconde-esconde

I

Rima e metáfora,
traquinas, de mim se escondem:
nada ou noves fora.

II

Olho para cima
tentando encontrá-las, ambas:
metáfora e rima.

III

Já é tarde e as duas
trapaceio depois que
fizeram das suas.

Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA)





Daniel, Evo, Chávez, Correa observam o desfile da Batalla de Carabobo

O presidente da República Bolivariana da Venezuela, Hugo Chávez Frías, sustentou esta quarta-feira que com a troca da denominação de Alternativa, por Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA) e com os novos projetos surgidos durante a VI Cúpula, começa uma nova dinâmica para esse mecanismo de integração regional.
___________________________________________________
Hai-Kai para a Alba e os quatro líderes.
Alba

A brava Aliança
em combate corajoso
nova ordem lança.

Ortega

Revolucionários
são do teu breve ensaio
todos tributários.

Morales

Brilhante e sagaz
Tuxaua de um povo livre
Evo de La Paz.

Chàvez

Sua estrela brilha
orientando os novos rumos
que a América trilha.

Correa

É faixa que une
povo em virtuosa luta e
velhos chacais pune.
Homenagem de Carlos Henrique de Pontes Vieira

terça-feira, junho 23, 2009

Hai-Kai II







Carlos Henrique de Pontes Vieira


Chacais

Os capitalistas
de olho no voto se tornam
todos socialistas.

Memórias

De todas guardadas
aquelas mais caras são
as compartilhadas.

Afinidades

Quando se encontram,
em pacto amistoso a criança
e o cão se entreolham.

Sabotagem

De Nietzsche, a lição:
o fraco é quem mina o forte
e ganha adesão.

In

A Leila é quem D(in)iz:
a vida só faz sentido
se é pra ser feliz.

Comandante

Fidel Castro Ruz
de Cuba, força moral,
farol, fanal, luz

Impressão

Meu menino, franco,
pensou que o mundo antes
fosse em preto e branco

América

Latina, Ibérica
de Garcia Márquez, terra
surreal, feérica.

Flora Tristan

Brava flor de França
que tua força e tua luta
grassem confiança.

Marilyn

Os teus assassinos
não tiveram melhor sorte
nem outros destinos.

Esqueceram de mim ou o Fracasso do G-20





Frei Betto

Meu nome é miséria. Comprometo, hoje, a vida de cerca de 1,5 bilhão de pessoas, sobretudo crianças desnutridas, vulneráveis à morte precoce.

Tinha esperança de que na reunião em Londres, no início de abril, o G-20, que reúne as 20 maiores economias do planeta, se lembrasse de mim. Hoje, devido à indiferença dos que governam o mundo, ameaço a maioria da população da África, cuja situação é agravada por cerca de 25 milhões de pessoas contaminadas pelo HIV. Em menor proporção, estou presente também na Ásia e na América Latina.

No Brasil, sou encontrada a olhos vistos no Vale do Jequitinhonha (MG), na fronteira entre Alagoas e Pernambuco, no interior do Maranhão e do Pará, nas tribos indígenas e entre a população quilombola. E, de modo aberrante, nas favelas que circundam as grandes cidades.

Esperava que o G-20, frente à crise financeira mundial, fosse destinar recursos para reduzir a minha incidência global. Segundo as Metas do Milênio, da ONU, bastariam US$ 500 bilhões para erradicar a fome crônica que, hoje, castiga 950 milhões de pessoas.

Os governantes do G-20 sofrem de hiperopia, o contrário da miopia: enxergam muito mal de perto. Em vez de debaterem como livrar o mundo da minha presença, decidiram destinar US$ 1,1 trilhão para "salvar o mercado", entenda-se, FMI, BID, Banco Mundial, grandes empresas e bancos - os responsáveis pela crise.

O capitalismo neoliberal deu um tiro no próprio pé. Agora apela aos cofres públicos para socorrer os "pobres" miliardários que costumam transformar a injeção de recursos em bônus astronômicos aos executivos de empresas sob risco de falência.

Que decepção o G-20! Pensei que daria fim aos paraísos fiscais. Em vez de fechar o bordel, decidiu divulgar o nome de seus frequentadores. Viva o império dos laranjas! Já deve ter gente abrindo empresas capazes de dividir a grana do narcotráfico e da corrupção em porções mais palatáveis.

Por que o G-20 não proibiu governos, empresas e pessoas físicas de terem ativos em paraísos fiscais ou de se associarem a instituições ali estabelecidas? A resposta é óbvia: encarregou a raposa de manter fechado o galinheiro...

Vários países europeus são verdadeiros Éden para as finanças escusas: Suíça, Luxemburgo, Bélgica, Áustria, a City de Londres etc. Quem garante que esses feudos de riqueza ilícita (no mínimo, sonegadora de impostos em seus países de origem) vão mesmo quebrar o sigilo bancário de seus clientes, como quer o G-20?

E por que entregar toda essa fortuna de US$ 1,1 trilhão ao FMI, de triste memória? Todos sabemos tratar-se de uma instituição atrelada à Casa Branca e à política exterior usamericana; mete o nariz nas finanças dos países que lhe tomam dinheiro emprestado; impõe medidas econômicas que favorecem privatizações, aumento da desigualdade social, oligopolização de empresas e bancos etc.

Em suma: os contribuintes, ou seja, o povo, que mais paga impostos, está compulsoriamente convocado a canalizar fortunas para tentar aplacar a crise financeira dos donos do mundo. Estes temem que, sem crédito, os países emergentes deixem de comprar produtos manufaturados das nações ricas, aumentando o desemprego, e sigam o exemplo do Equador, que decretou moratória enquanto durar a crise.

Antes de pensar em contribuir com US$ 10 bilhões para a "vaquinha" do FMI, o Brasil deveria curar-se da hiperopia e olhar um pouco mais para mim: com esse recurso eu seria progressivamente erradicada e haveria aqui mais educação, menos violência urbana e, portanto, mais qualificação profissional e menos desemprego.

Em vigência o TLC entre Guatemala e Panamá







Nesta segunda (22) foi efetivado o Tratado de Livre Comércio (TLC) entre Guatemala e Panamá. O convênio foi firmado em fevereiro deste ano depois de quase dez anos de negociações. O Ministério da Economia guatemalteco chamou a imprensa para a cerimônia protocolar em sua sede, onde o titular da pasta, Rubén Morales, realizou o anúncio oficial.

O ministro destacou que o setor dos alimentos será o mais beneficiado, já que, segundo disse, "a indústria guatemalteca de alimentos é mais desenvolvida e possui um bom mercado no Panamá".

Também falou das melhores oportunidades em outras áreas industriais, como pinturas, construção e inversão.

Acrescentou que buscará estimular aos empresários guatemaltecos para que busquem oportunidades nos setores agrícolas e de grãos básicos.

Sustentou, ainda, que um dos setores que mais interessa aos empresários panamenhos é o dos serviços financeiros.

sexta-feira, junho 19, 2009

Reciprocidade ou Morte



Leonardo Boff

Desde que os seres humanos decidiram viver juntos, estabeleceram um contrato social não escrito pelo qual formularam normas, proibições e propósitos comuns que permitissem uma convivência minimamente pacífica.

Depois surgiram os pensadores que lhe deram um estatuto formal como Locke, Kant e Rousseau. Todos esses contratos históricos têm um defeito: supõem indivíduos nus e acósmicos, sem qualquer ligação com a natureza e a Terra. Os contratos sociais ignoram e silenciam totalmente o contrato natural. Mais ainda, a partir dos pais fundadores da modernidade, Descartes e Bacon, implantou-se a ilusão de que o ser humano está acima e fora da natureza com o propósito de domínio e posse da Terra. Este projeto continua a se realizar mediante a guerra de conquista seguida pela apropriação de todos os recursos e serviços naturais. Atrás sempre fica um rastro de devastação da natureza e de desumanização brutal. Antes se fazia guerra e apropriação de regiões ou povos. Hoje conquistaram-se todos os espaços e se conduz uma guerra total e sem tréguas contra a Terra, seus bens e serviços, explorado-os até a sua exaustão. Ela não tem mais descanso, refúgio ou espaço de recuo.

A agressão é global e a reação da Terra-Gaia está sendo também global. A resposta é o complexo de crises, reunidas no devastador aquecimento global. É a vingança de Gaia.

Não temos outra saída senão reintroduzir consciente e rapidamente o que havíamos deixado para trás: o contrato natural articulado com o contrato social. Trata-se de superar nosso arrogante antropocentrismo e colocar todas as coisas em seu lugar e nós junto delas como parte de um todo.

Que é o contrato natural? É o reconhecimento do ser humano de que ele está inserido na natureza, de quem tudo recebe, que deve comportar-se como filho e filha da Mãe Terra, restituindo-lhe cuidado e proteção para que ela continue a fazer o que desde sempre faz: dar-nos vida e os meios da vida. O contrato natural, como todos os contratos, supõe a reciprocidade. A natureza nos dá tudo o que precisamos e nós, em contrapartida, a respeitamos e reconhecemos seu direito de existir e lhe preservamos a integridade e a vitalidade.

Ao contrato exclusivamente social, devemos agregar agora o contrato natural de reciprocidade e simbiose. Renunciamos a dominar e a possuir e nos irmanamos com todas as coisas. Não as usamos simplesmente, mas, ao usá-las quando precisamos, as contemplamos, admiramos sua beleza e organicidade e cuidamos delas. A natureza é o nosso hospedeiro generoso e nós seus hóspedes agradecidos. Ao invés de uma trégua nesta guerra sem fim, estabelecemos uma paz perene com a natureza e a Terra.

A crise econômica de 1929 sequer punha em questão a natureza e a Terra. O pressuposto ilusório era de que elas estão sempre ai, disponíveis e com recursos infinitos. Hoje a situação mudou. Já não podemos dar por descontada a Terra com seus bens e serviços. Estes mostraram-se finitos e a capacidade de sua reposição já foi ultrapassada em 40%.

Quando esse fator é trazido ao debate na busca de soluções para a crise atual? Somos dominados por economistas, em sua grande maioria, verdadeiros idiotas especializados - Fachidioten - que não vêem senão números, mercados e moedas esquecendo que comem, bebem, respiram e pisam solos contaminados. Quer dizer, que só podem fazer o que fazem porque estão assentados na natureza que lhes possibilita fazer tudo o que fazem, especialmente, dar razões ao egoísmo e às barbaridades que a atual economia faz prejudicando milhões e milhões de pessoas e que vai minando a base que a sustenta.

Ou restabelecemos a reciprocidade entre natureza e ser humano e rearticulamos o contrato social com o natural ou então aceitamos o risco de sermos expulsos e eliminados por Gaia. Confio no aprendizado a partir do sofrimento e do uso do pouco bom senso que ainda nos resta.